FALSOS CRISTOS E FALSOS PROFETAS

Paulo R. Santos
Nosso mundo enveredou por caminhos tão incertos que permitiu o surgimento de novas crenças, seitas e grupos religiosos que se apresentam à sociedade com um pé no sistema econômico e outro na fé, intercambiando com facilidade as duas coisas.

Verdade que não se faz difusão de coisa alguma sem recursos financeiros e materiais mínimos, ainda mais numa sociedade inflacionada por tudo: informações, imagens, sons, idéias, crenças etc. Na atualidade, vivemos uma espécie de vale tudo num mundo onde, aparentemente, nada mais tem real importância.

As sucessivas crises em países como o Brasil, abrem espaço para a descrença nas instituições e também nas religiões tradicionais, que deixam o caminho aberto para seus sucedâneos, dentre eles seitas e grupos semi-religiosos que se apresentam como negociadores entre os membros dessas legiões de desesperados, produzidos pelo desemprego e pelo medo, e Deus. Aparecem como agenciadores da fé, com credenciais exclusivas emitidas pelos céus.

Em tempos de insegurança e barbárie, qualquer um que apresente uma tábua de salvação de cunho espiritual, mas com garantias também materiais, tem boas chances de assegurar primeiro sua própria sobrevivência.

Um mundo esgotado em seus valores, vazio de conteúdos estáveis e seguros é presa fácil de mecanismos de alienação muito bem aproveitados pelos espertalhões da vida pública e dos novos vendilhões do templo, contra os quais – segundo a tradição evangélica – Jesus teria investido de forma excepcionalmente enérgica.

Os avisos de Jesus de Nazaré, acerca dos falsos cristos e falsos profetas que estavam por vir, parecem se tornar ainda mais relevantes pelo que se vê na atualidade. Uma poderosa indústria da fé está montada e em pleno funcionamento. São muitos os falsos Cristos que se erigem como interlocutores diretos entre os homens e a divindade e uma nova onda de obscurantismo se estende pelo mundo.

Tais seitas – e são muitas, principalmente em países mais pobres – colaboram de forma muito eficiente para com o sistema social opressivo e dominador da atualidade: garantem a lucratividade e ajudam no controle social.

Apesar de tudo, são seitas que dificilmente criarão raízes. Como são reflexos das angústias e incertezas coletivas, devem passar com o tempo, assim como os falsos Cristos e os falsos profetas. São o resultado de interesses mesquinhos de poderosos do momento e que tiram proveito de tudo para manter seus privilégios, certamente provisórios.

O direito à liberdade de culto é indiscutível, porém o simples silêncio, escudado nesse preceito mais ético que legal, pode converter-se em mais espaço para a atuação de pessoas equivocadas que conduzem outras para os mesmos caminhos. São cegos guiando cegos, como se lê na advertência deixada por Jesus.

Tais seitas e grupos espalham-se pelos quatro cantos do planeta e já se servem de alta tecnologia e recursos de mídia. Alienam e produzem uma fé vazia, cômoda e imediatista, fanatizante e por isso socialmente perigosa. Será que o obscurantismo medieval está de volta, demonstrando que a história de fato se repete?

Não será fácil fazer uma travessia tranqüila nessa era de conflitos. Haja vista a violência crescente e as últimas guerras, o recrudescimento do terrorismo e do auto-extermínio. Fazer de conta que nada está acontecendo é, sem dúvida, uma opção, mas ignorar a realidade dos acontecimentos não lhes tira a importância e os efeitos danosos sobre a vida individual e coletiva.

Uma organização social mais justa, mais equânime só poderá ser estabelecida com o engajamento dos membros que compõem a sociedade. Não será um presente dos céus, uma “graça” concedida a uns e não a todos, e menos ainda algo outorgado pelo Estado.

 

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