ESTÁ SALVA A PROPRIEDADE

Humberto Vasconcelos
O poeta folheia o jornal do dia e se depara com a notícia de que um moço de 21 anos, de endereço desconhecido, empregado do entreposto de leite, é alvejado por uma bala que lhe tira a vida, na antemanhã de um dia qualquer. O moço entregava o leite na porta das casas, como era costume da época. Matava a sede da cidade e acumulava com seu trabalho na madrugada alguns trocados com que atenuava sua indigência. Mas foi confundido com um ladrão, e antes que vozes da ponderação se fizessem ouvir, um morador assoberbado pelo rumor de que o bairro andava infestado de ladrões acionou a arma assassina, e lá se foi a vida do leiteiro. Estava morto o homem, mas estava salva a propriedade. O registro está na crônica poética de Carlos Drummond de Andrade.

Extraio do episódio a motivação para enfrentar o tema que me foi proposto para este artigo: Dois anos do 11 de setembro de 2001. Nessa data, apontada pelos comentaristas como um marco a partir do qual o mundo já não mais seria o mesmo, duas torres imensas fincadas no coração da cidade de Nova Iorque desabam, sob o impacto de duas aeronaves arremessadas contra elas pela fúria do terrorismo. Destruição e morte. Desamparo. Frustração. O homem vai à Lua mas não se segura na Terra.

O homem comum (somos todos) não pode deixar de indignar-se com ocorrências tão lamentáveis. Mas de todos nós a vida requer uma atitude mais madura diante desses quadros da trágica realidade destes dias.

É que cenas como aquela, que se tornam rotineiras e cruelmente banais, não podem ser interpretadas isoladamente. Elas ocorrem dentro de uma cadeia lamentavelmente lógica de gestos, palavras e atitudes que marcam a nossa convivência no Planeta.

Violam-se as leis da vida e a violência precipita-se de variadas formas, gerando uma situação de absoluto desconforto entre os homens. O Mestre Jesus chamava atenção para o fato de que a convivência humana deveria ser construída a partir do compromisso do amor. O amor ao Pai e ao próximo, como o amor a si mesmo, princípios que compõem a ética da existência segundo as linhas do pensamento do Mestre Nazareno, indicam que a vida é regida pela Lei do Amor. A ausência dessa consciência entre as pessoas envenena a convivência e deteriora a vida.

“Existe perfeita correspondência entre nossa alma e a alma das coisas”, ensina Emmanuel. Os grandes desastres, como as grandes guerras, constituem a culminância de pequenas transgressões diárias à lei de harmonia que comanda a vida no Universo.

Que se faça, pois, uma análise de como vai a vida de cada um. Se temos sido amigos de nossos amigos; se não temos falhado com nossos deveres como profissionais, como pais, como irmãos, como esposos; se temos sido atentos aos nossos compromissos de cidadãos. Qual tem sido nossa atitude diante dos necessitados que nos batem à porta. Se temos sido indulgentes, compreensivos. Se temos sabido combater a indiferença diante do grito da necessidade que ouvimos à nossa volta. Devemos saber que, se percebemos o mal, assumimos o compromisso de combatê-lo. Trata-se de um compromisso perante nossa própria consciência. Não podemos alegar desconhecimento de causa.

Recorremos mais uma vez ao Mestre dos Mestres, quando diz: “Não resistais ao mal!”. Como infelizmente ainda apresentamos uma propensão para o mal, costumamos responder as agressões com agressões maiores.

É inevitável, pois, que assumamos a parte que nos cabe. A paz a que todos aspiram não pode ser obra de alguns apenas. Não há ingenuidade nisso.

Não se matam pessoas para salvar propriedades. A fome, o desamparo, o medo, a doença física, a ausência de escola, de habitação, de emprego, de segurança, são formas intoleráveis de violência equivalentes à morte, até porque matam nos homens a crença em si mesmos. É essa crença, o patrimônio que precisamos salvar. Que o façamos, solidariamente, enquanto é tempo.

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