UMA APRECIAÇÃO ESPÍRITA SOBRE A ILUSÃO

Jonas Paulo
Dizem alguns estudiosos do comportamento humano que quando alguém está apaixonado também está iludido. Dita de outra forma esta assertiva fica assim: quando a paixão dirige o foco do olhar e não são vistos defeitos na pessoa amada, se está cego e não é possível, nesse estado, enxergar a completude do outro. Trata-se de um processo de transferência, onde se idealiza um perfil fantasioso, de teor narcisista, imaginando-se a outra pessoa segundo o que se gostaria que ela fosse, isto é, quem "está roxo de paixão", está perdido de amores por si mesmo e não sabe.

O tempo passará e o verniz da ilusão sofrerá o conseqüente desgaste, abre-se então espaço para o sol da desilusão, que restabelece a verdade dos fatos. Aí o céu já não parece mais tão azul, e instala-se a decepção. Fecha-se o tempo com as frustrações, e ocorre a expulsão do paraíso. Ato seguinte: novas investidas nos caminhos da ilusão na eterna busca da felicidade, com fantasias e sonhos que podem virar pesadelos à medida que se teime em projetar nos outros a criatura talhada como a ideal, em grande descompasso com a realidade.

A verdade aflora quando a desilusão chega, e isto é muito positivo (ainda que, por vezes, sofrido).

Desiludir-se significa aprofundar o conhecimento sobre a outra pessoa, longe do campo da ficção, diminuindo expectativas e pressões de ambos os lados. Neste ponto o tempo é um parceiro e tanto que ajuda a desatar os nós, traduzindo o que, até então, parecia intrincado. Quando se consegue comunicar os propósitos e sentimentos com clareza cristalina dissolvem-se as incertezas e a ilusão se dissipa. A habilidade de ouvir com atenção, sem julgamentos e preconceitos, com aceitação plena da pessoa como ela é, e sem os adereços da ilusão, é caminho para a felicidade, vez que, aceitar não é concordar.

Afirma o Espírito Hammed, no livro "As Dores da Alma", em psicografia de Francisco do Espírito Santo Neto, que "A criatura humana modela suas reações emocionais através dos critérios dos outros, estabelecendo para si própria metas ilusórias na vida. Esquecem-se, entretanto, de que nossas experiências são únicas, como também únicas são nossas reações e de que o nosso constante estado de desencontro e aflição é subproduto das tentativas de concretizar essas nossas irrealidades".

Constantemente, criamos fantasias em nossa mente, bloqueamos nossa consciência e recusamos aceitar a verdade. Usamos os mais diversos mecanismos de defesa, seja de forma consciente, seja de forma inconsciente, para evitar ou reduzir os eventos, as coisas ou fatos de nossa vida que nos são inadmissíveis. A "negação" é um desses mecanismos psicológicos; ela aparece como primeira reação diante de uma perda ou de uma derrota. Portanto, negamos, invariavelmente, a fim de amortecer nossa alma das sobrecargas emocionais. Quanto mais sonhos ilógicos, mais cresce a luta para materializá-los, levando certamente os indivíduos a se tornar prisioneiros de um círculo vicioso e, como resultado, a sofrer constantes frustrações e uma decepção crônica.

Um ser humano supercrítico tem uma necessidade compulsória de ser considerado irrepreensível. Sua incapacidade de aceitar os outros como são é reflexo de sua incapacidade de aceitar a si próprio. A ação de controlar os outros se transforma, com o passar do tempo, em um nó que estrangula, lentamente, as mais queridas afeições. Se continuarmos a manter essa atitude manipuladora, veremos em breve se extinguir o amor dos que convivem conosco. Eles poderão permanecer ao nosso lado por fidelidade, jamais por carinho e prazer. Escolhemos amizades inadequadas, não analisamos suas limitações e possibilidades de doação, afeto e sinceridade e, quando recebemos a pedra da ingratidão e da traição por parte deles, culpamo-los. Certamente, esquecemo-nos de que somos nós mesmos que nos iludimos, por querermos que as criaturas dêem o que não podem, e que ajam como imaginamos que devem agir. Não culpemos ninguém pelos nossos desacertos, pois somos os únicos responsáveis - cada um de nós - pela qualidade de vida que experimentamos aqui e agora.

Fechar

Endereço: Rua Marechal Deodoro, 460, Encruzilhada, Recife/PE - CEP 52030-170