CHICO – UM ANO SEM ELE

Humberto Vasconcelos
Chico Xavier impregnou a vida com sua marca incomum. Não foi apenas o mensageiro através de quem páginas notáveis foram escritas pelos benfeitores do espaço, nem mesmo tão somente o porto generoso onde os amargurados de todos os matizes iam ancorar suas dores. Chico foi referência da espiritualidade superior em seus propósitos de ajudar os homens e esclarecer as mentes encarnadas. E, neste sentido, não pode ser considerado como personagem do movimento espírita. Seu nome, sua presença, sua obra, apontam no sentido de um cidadão do mundo, agente de uma sociedade que deseja construir-se solidária.

Por isso, não podemos nutrir a idéia de que ele fosse apenas importante para o espaço geográfico que reteve sua honrada pessoa durante quase um século de existência física. Nem mesmo que tenha sido importante para marcar uma certa fase de nossa conturbada história. Sua ausência desfalca nossa contemporaneidade. E neste sentido é indubitável que estamos todos muito mais pobres.

A contribuição que sua vida representou para a construção da chamada sociedade solidária ainda vai gerar muitos estudos, porque longe estamos de haver explorado adequadamente cada uma das lições disseminadas em suas mais de quatrocentas obras psicografadas. Há um vasto território inexplorado, à espera de investigadores que possam captar os magníficos ensinamentos que a Espiritualidade Superior nos deixou através daquele dedicado discípulo do amor cristão.

Estará a sociedade equipada para essa tarefa? Que equipagem se exigirá dos investigadores de sua obra? Qualquer que seja a resposta que possamos apresentar, o certo é que há enorme escassez de um equipamento que julgamos essencial para esse fim – a humildade. A par do conhecimento, da dedicação, do gosto pelo estudo, ao homem deste século que se insere numa presumida era do conhecimento, não pode faltar esse contributo essencial, em nome do qual deverão ser combatidos os personalismos que tanto mal têm produzido à verdadeira compreensão do próprio ideário do Cristianismo, hoje disperso em inúmeras igrejas.

O preceito evangélico de que muito se exigirá daquele que mais houver recebido aplica-se integralmente ao espírita destes tempos pós-Chico Xavier e aos estudiosos do processo religioso moderno, em sentido mais amplo. Não podemos alegar desconhecimento. A obra está aí, vasta e generosa. Louve-se, neste particular, o nobre esforço empreendido pela Federação Espírita Brasileira, cujo programa editorial foi o grande foco de irradiação da obra captada pelo querido médium mineiro. A esse esforço, que teve como ponto de partida a corajosa publicação do Parnaso de Além Túmulo, nos idos de 1932, juntaram-se outros empreendimentos editoriais, todos estimulados por Chico, que doava os direitos autorais de tudo quanto recebia da Espiritualidade para as iniciativas das editoras espíritas.

Pelo excepcional conjunto de sua obra, não hesitamos em admitir represente ela uma fase complementar essencial à Codificação Espírita. Nada do que ficou por seu intermédio registrado contraria, sequer em mínima proporção, a obra de Allan Kardec. Como igualmente em relação à conduta exemplar do notável medianeiro, tudo nele indica quão exitosa foi para sua alma a influência dos preceitos do Evangelho de Jesus. Mais ainda. Se antes de Chico Xavier poderiam alguns admitir que o Espiritismo constituiria uma proposta religiosa excludente, depois dele, sobretudo de sua contribuição ao pensamento inscrito nas páginas inspiradas do Evangelho, não podem deixar de reconhecer que a revelação espírita constitui, ela mesma, uma fase nova de expansão dessas mesmas idéias cristãs.

Pois o Evangelho foi a bússola orientadora de cada um dos passos do homem simples que foi Chico Xavier, que, entretanto, terminou homenageado por seus coestaduanos como o Mineiro do Século, não certamente por sua vasta obra psicográfica tão preciosa para os ideais espiritistas, mas, sem dúvida, pela bondade que se irradiava de sua pessoa e o identificava como um verdadeiro apóstolo do amor, integrante de um seleto grupo de figuras humanas notáveis, que têm simbolizado, ao longo da história, a proposta renovadora do Evangelho.

Francisco Cândido Xavier nasceu em Pedro Leopoldo (MG) no dia 02 de abril de 1910 e desencarnou na cidade de Uberaba (MG) no dia 30 de junho de 2002.

Homenagem da ADE-PE e da comunidade espírita pernambucana ao querido benfeitor.

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