A VIOLÊNCIA DA FOME

Camilo
Uma das perturbantes conseqüências do desemprego é, sem contestação, a fome. Não tendo do que lançar mão, honestamente, para prover as necessidades básicas, o indivíduo, com sua família, muitas vezes se achará presa de ideações infelizes que o poderão conduzir a experiências tortuosas, uma vez que a fome não conhece moralidade.

No vasto território das violências contra a humanidade, a fome se apresenta como o grande e cruel carrasco, apta a depauperar e adoecer gerações inteiras, promovendo desde raquitismo a deficiências intelectuais, por causa da incapacitação neuronial que se vai estabelecendo com a falta da nutrição exigida pelas primeiras idades da criança.

Transtorna a consciência humana, contudo, a identificação dos quadros da fome num mundo onde se desperdiça, onde as demandas de preços que se praticam nos mercados das trocas determinam que se deve atirar fora ou atear fogo às inumeráveis quantidades de produtos, que não logram obter os preços nos níveis desejados, sem qualquer pensamento dirigido às comunidades esfaimadas, deserdadas e humilhadas.

Queimam-se cereais e a preciosa rubiácea ou, simplesmente, deixam-nos deteriorar em depósitos, por não encontrarem preços compatíveis com os interesses dos produtores.

Lançam-se às águas dos rios litros e litros de leite, pela insatisfação dos pecuaristas que os produzem. Incineram-se toneladas de carne, ou transformam-nas em ração para animais, porque ficaram estocadas anos a fio, tornando-se, por isso, imprestáveis ao consumo humano. Por descaso, imperícia ou pelo motivo que for, são processos sempre comandados pelo egoísmo.

E o denominado lixo rico das metrópoles? Centenas e centenas de quilogramas de alimentos intactos atirados fora em virtude do espírito consumista que adquire mas não utiliza, e também não transfere a outras mãos. Obras do egoísmo.

Enquanto o espírito perdulário avança em seu instintivo desmando, contempla-se o desfile dos famintos que disputam com os animais, nas lixeiras, a sobrevivência diária, chegando muita gente ao ponto de se socorrer de dejetos corrompidos, para não sucumbir, de vez, na agonia e desamparo que a soterram.

Em O Livro dos Espíritos, quando o Codificador pergunta sobre os que monopolizam os bens da Terra em prejuízo daqueles a quem falta o necessário, os Luminares Espirituais afirmam que esses tais responderão pelas privações que hajam feito alguém experimentar, e que são espíritos que desconhecem a lei de Deus.

Allan Kardec, no seu lúcido comentário sobre a questão, diz que "os que vivem às custas das privações alheias, que exploram os benefícios da civilização em seu próprio proveito, não têm da civilização senão o verniz...”, o que não reflete outra coisa senão um horrendo panorama de violência.

Transcrito do livro “Justiça e Amor”, psicografado pelo médium J. Raul Teixeira (RJ) e editado pela Editora Fráter

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