O SENTIDO RELIGIOSO DA PÁSCOA

Humberto Vasconcelos
A Páscoa é uma festa antiga. Tem o significado de passagem. Antes de Moisés, servia para celebrar a chegada da primavera, entre os pastores nômades, isto é, aqueles pastores que não tinham habitação fixa. A primavera significava para eles o despontar de um novo tempo, promessa de prosperidade, motivo de uma festa em torno da qual se congregavam.

Posteriormente, a data, entre os hebreus, passou a simbolizar a libertação da escravidão egípcia, adquirindo progressivamente um caráter religioso, cheio de rituais. Na comunidade judaica, a páscoa era comemorada pela aspersão do sangue de um cordeiro na porta das residências, enquanto as famílias, dentro das casas, comiam um pão sem fermento (pão ázimo) e bebiam muito vinho.

Na tradição católica, a páscoa passou a simbolizar a comunhão, que quer dizer reunião, congraçamento, encontro. A comemoração central está na ceia pascal, aquela que Jesus realizou com a presença dos doze apóstolos e durante a qual repartiu o pão entre seus convidados. Dir-se-ia que Jesus utilizou a tradição da festa para oferecer-lhe mais amplo significado de união e mútuo compromisso.

A tradição sofreu profundas alterações com o tempo. Havia abstinência de carne, as famílias construíam um certo ar de recolhimento nos lares, onde até certas tarefas eram proibidas, sobretudo até o meio-dia da Sexta-feira. As emissoras de rádio divulgavam música erudita durante todo o dia, não se ouvindo qualquer tipo de música que pudesse denunciar um caráter profano ao dia santificado.

Nos dias de hoje, a festa se distancia de seu significado histórico e, acima de tudo, de seu caráter religioso. São dias feriados em que as famílias se congregam em torno de uma mesa farta e muitas extravagâncias, com o aumento considerável do consumo de bebidas alcoólicas. Os moços vão aos ambientes festivos, dominados por músicas estridentes e onde tudo se permite. E até mesmo os belos espetáculos da Paixão de Cristo, na exuberante Nova Jerusalém, são assistidos quase sempre sem o sentimento religioso que deveriam inspirar, prevalecendo neles, nos dias presentes, a performance das estrelas da televisão.

A Doutrina Espírita não cultiva o formalismo dos calendários. Todavia, não lhe são indiferentes as datas em que as comunidades se dedicam a reflexões religiosas. Afinal, o Espiritismo não prega a alienação. Ao contrário, procura valorizar todo ensejo de confraternização entre as pessoas, sobretudo em torno de ideais elevados do espírito. É justo afirmar-se, inclusive, que o Espiritismo tem o máximo interesse de ressaltar o substrato cultural das festas religiosas, por entender que a consciência dos bens culturais fortalece o humanismo nas pessoas e pode torná-las mais seguras e felizes.

Dessa forma, que nos seja lícito, nesta hora, sem pretendermos promover qualquer tipo de julgamento dos modismos dos dias presentes em relação aos festejos pascais, relembrar o convite do Mestre Jesus à comunhão entre as criaturas. Se possível, transformemos a confraternização que o feriado proporciona em oportunidade para refletirmos em torno dos destinos do mundo que nos foi confiado, sobretudo neste momento de tantas incertezas, de tanto sangue derramado, de tantos mártires que balas agressoras e atitudes de indiferença têm produzido nestes últimos tempos, nos palcos de guerras indecorosas e nas ruas conflagradas de nossas metrópoles.

Páscoa deve ser libertação a partir do símbolo do pão repartido entre as pessoas. Seja, pois, oportunidade para reflexão em torno desse precioso ensinamento, único que pode conduzir-nos à libertação.

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