A MORTE NÃO VALE A PENA
Carlos Pereira

Recentemente, o então governador do Estado americano de Illinois, George Ryan, assinou um decreto anulando a sentença de 167 condenados a pena de morte transferindo-as a reclusões que variam de quarenta anos à prisão perpétua, dos quais, quatro deles já foram inocentados, pois haviam sido condenados depois de serem submetidos a sessões de tortura para confessarem crimes que não cometeram. A decisão de George Ryan foi a maior vitória obtida pelos adversários da pena de morte nos Estados Unidos e o interessante é que o próprio Ryan havia sido um ardoroso defensor deste método oficial de assassinato. A pena de morte, porém, não foi abolida em Illinois. Criada sob o argumento de que o medo da pena máxima iria coibir o crescimento da violência, a pena de morte nos Estados Unidos tem demonstrado na prática ser ineficiente, uma vez que os índices de violência continuaram a se elevar. O que levaria, porém, um País, dito cristão, a adotar a pena de morte no seu código de leis? A ausência da própria doutrina cristã no regimento de suas relações sociais.

Custa a crer que uma sociedade que leve, de fato, a sério as recomendações do evangelho de Jesus decida combater o crime com outro crime. Onde estaria a interpretação do ensinamento de que se desse a outra face quando alguém te ferisse? É certo que muitos não compreenderam direito esta assertiva do Cristo que alertava, na realidade, para a necessidade de dar uma resposta com o bem para o mal que tenha sido vítima, isto porque sua doutrina se fundamenta exatamente no exercício do amor e, sobretudo, no amor àqueles que nos agridem. “Que proveito terá a amar àqueles que nos amam? Eles também não amam os seus?” Amar, de verdade, é conseguir gostar – ou ao menos não desejar o mal – aos que não nos ama. A proposta original é amar os inimigos, que convenhamos seja muito difícil, mas que é fase indispensável para se amar em plenitude.

O mundo, mais do que nunca, está sequioso de atitudes de amor, como essa do governador Ryan, até porque só “o amor cobre a multidão de pecados”. Só o amor. A tese do Cristo foi, é e sempre será atualíssima, porque teimamos em enveredar por caminhos tortuosos e demonstradamente ineficazes. Apenas com amor é que se pode recuperar o pior dos criminosos. Apenas com amor é que se reeduca o ser enfermo moralmente. Apenas com amor é que se consegue vencer a violência, por isso é que a pena de morte não funciona. Há, no entanto, um outro elemento capital neste raciocínio homicida, a idéia de que a morte está eliminando a causa do mal.

O apenado, quando assassinado numa cadeira elétrica, por exemplo, liberta-se da prisão do corpo físico e fica muito mais à vontade para continuar no mundo do crime. Consciente ou não do seu agora estado espiritual, ele passará a induzir, mediante o processo da obsessão, a outras criaturas que tenham afinidade com ele para produzir novos delitos. O tiro sai pela culatra. Na prática, o que está se dando é uma imunidade para sua ação doentia. E todos perdem porque não se utilizou a pena do amor. Esta sim é a pena máxima a que todos nós estamos condenados. Mais cedo ou mais tarde, Deus, o Juiz por Excelência das nossas vidas, vai aplica-la em nós, queiramos ou não. Mesmo o mais terrível dos criminosos não ficará impune a ela. Na Lei da Justiça Divina há um decreto permanente para toda a humanidade universal: a Misericórdia. Somente Ele a executa em sua totalidade, porque sendo a fonte do amor, sabe que dentro de cada uma das suas criaturas dormita a sua fagulha, muitas vezes ignorada, mas que prevalecerá inevitavelmente.

Em lugar da pena de morte, façamos campanha pela sua substituição pela pena do amor, por esta causa vale a pena viver.

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