A VIDA PASSADA DE RITA CADILLAC

Carlos Pereira

Programa do Ratinho, 22 de maio de 2003, e o apresentador vai logo dizendo: “eu não acredito nesse negócio de reencarnação, não acredito”. A seguir, o “Sombra” anuncia que um determinado terapeuta cura as pessoas utilizando a Terapia de Vidas Passadas. Eis que aparece o videotape mostrando momentos de realização de regressões em alguns pacientes. Ratinho diz que a produção do programa resolveu colocar uma pessoa conhecida para passar pela experiência, pois os vídeos apresentados eram de autoria do terapeuta e gostaria de uma pessoa neutra para testá-lo. Eis que aparece a ex-chacrete Rita Cadillac. O terapeuta a faz relaxar profundamente e ela vai regredindo, regredindo, regredindo...

Rita Cadillac muda a voz, uma voz de uma pessoa nitidamente mais velha, doente, queixando-se de uma grande dor na perna direita. Para evitar passar por sofrimentos, o terapeuta regride ainda mais. Ela fala que tem dois filhos, está novamente grávida e prestes a ter seu terceiro rebento. Chora. O bebê nasce morto. O repórter que faz a matéria gravada declara que Rita Cadillac teria vivido na Europa na época de uma grande epidemia, talvez a da peste, vindo a morrer em decorrência desta doença. O terapeuta, então, a traz de volta ao momento presente. Ratinho chama Rita Cadillac ao palco. “Rita, você tem algo a dizer sobre essa experiência?”, pergunta Ratinho. “Estou vendo a matéria agora e não me lembrava de nada que havia dito na ocasião da regressão. Agora tenho uma explicação da dor que tenho na perna direita desde criança e olha que eu nunca acreditei antes em reencarnação”, sentencia a conhecida “Rainha do Carandiru”. “É, vendo estas coisas fica difícil não acreditar em reencarnação, não sei”, conclui o Ratinho.

O que a matéria indagou no seu início era o seguinte: a Terapia de Vidas Passadas - TVP prova a reencarnação? Não, não prova, mas deixa fortes evidências que não há outra hipótese mais plausível para explicar o fenômeno. Evidência, em Ciência, é diferente de prova. Uma leva a crer como uma provável resposta, a outra é aceita como demonstração inequívoca até que outro modelo melhor possibilite explicar o fato. Também não é o objetivo de terapeutas sérios provar que a TVP prova a reencarnação e tampouco que se trata de uma terapia espírita, como algumas pessoas imaginam ser. Aliás, o termo correto para esta técnica psicológica seria Terapia de Vivências (e não Vidas) Passadas, até porque não é pré-condição para o seu uso a crença nas vidas sucessivas. O terapeuta responsável a utiliza como uma das ferramentas para a resolução de traumas, fobias ou outros distúrbios quando outras já foram usadas sem sucesso ou que ela seja a mais adequada para aquele problema em questão.

Duas observações são importantes para o uso da regressão de memória. A primeira é não fazê-la por curiosidade. Ora, se há o esquecimento do passado como processo natural no ser humano é porque existe uma utilidade da Providência Divina neste sentido. A recordação espontânea ou provocada se dará por razões justificáveis. A lembrança de algo do passado sem a devida maturidade de entendimento servirá para piorar a situação emocional cujo esquecimento funciona até como um certo mecanismo de defesa. O segundo cuidado diz respeito a capacidade do profissional para fazer esta psicoterapia. Raramente um profissional de nível vai utilizá-la como principal e primeira ferramenta de trabalho ou já comece a regressão no primeiro contato com o paciente.

O Espiritismo enxerga a TVP como mais uma possibilidade de demonstração científica da sobrevivência, imortalidade e retorno do ser no seu processo de autoconhecimento e melhoria espiritual. Até adverte do perigo de fazê-la quando o paciente passa por situações de surto obsessivo, uma vez que o obsessor pode aproveitar-se da condição de êxtase para atuar mais agressivamente na interferência psíquica.

Se você quiser saber, de fato, quem foi numa vida anterior segue um conselho mais sensato: olhe-se no espelho. Lá está a síntese de tudo que você foi e o prenúncio de tudo que você será se não se deixar roer pelo orgulho e pelo egoísmo, por exemplo. Estes, sim, são vorazes ratos que corroem a nossa felicidade.

Fechar

Endereço: Rua Marechal Deodoro, 460, Encruzilhada, Recife/PE - CEP 52030-170