TRATORISTA TORNA-SE HERÓI NACIONAL POR DAR LIÇÃO DE COMPAIXÃO

Carlos Pereira

A matéria emocionou todo mundo que assistiu. Um tratorista que iria cumprir com a sua obrigação que era demolir a casa de uma pessoa, em cumprimento a um mandato judicial não teve coragem de executar a sua missão. Na hora "H" desistiu do que iria fazer mesmo sendo ameaçado com voz de prisão.

Seu Amilton, o tratorista herói, mal consegue se comunicar. Humilde, ele, do seu jeito, deu uma lição ao mundo sobre a compaixão, sobre a capacidade de se colocar no lugar do outro e sentir na própria pele aquilo que seria a dor do seu irmão. É preciso ter muita coragem para tomar uma atitude desta que tomou Seu Amilton.

Na realidade, Seu Amilton viu em Dona Telma - que teria sua casa demolida - ele mesmo. A sua situação é semelhante.

Há outra lição, porém, que Seu Amilton deu para todos nós, uma lição ensinada por Jesus, o de se ter sede de justiça.

Quando, por compaixão, Seu Amilton se recusou a cumprir sua tarefa deu um recado, sem querer, as inúmeras ocupações irregulares de gente rica em que a Justiça oficial não consegue enxergar ou dar uma solução. Por que seria que a Justiça deve funcionar apenas para o pobre?

Não se quer aqui defender as ocupações irregulares que é conseqüência da ausência de um planejamento urbano e de políticas públicas habitacionais, principalmente para os cidadãos de baixa-renda, no entanto, a questão social, a questão humana, numa decisão judicial, deve ser levada em consideração.

Seu Amilton pode ser um analfabeto de instrução, mas mostrou que é um doutor em sensibilidade humana.

Eis a notícia na íntegra:

TV Globo, Jornal Nacional, 03 de maio de 2003.

O cidadão brasileiro que emocionou milhões de pessoas, ontem, no Jornal Nacional, voltou hoje à periferia de Salvador. Seu Amílton, tratorista, nove filhos, explicou ao repórter José Raimundo por que não conseguiu cumprir a ordem de derrubar uma casa.

O tratorista Amílton dos Santos hoje voltou ao bairro Palestina, região norte de Salvador, e foi recebido com emoção pelos moradores.

"É de pessoas como o senhor que a gente está precisando" diz uma senhora.

"Eu me emociono" , diz outra.

Para uma senhora de 75 anos, ele foi mais do que um amigo. "Foi um herói, obrigado senhor", diz ela.

O agradecimento mais emocionado veio da família que hoje estaria na rua se não fosse a surpreendente atitude de Seu Amílton. Dona Telma ontem entrou em desespero quando chegou a ordem judicial para demolir a sua casa.

"Ai, meu Deus, minha casinha", chora Telma Sueli dos Santos, merendeira.

Seu Amílton chegou a ligar o trator, mas não teve coragem de avançar. Desistiu e recebeu ordem de prisão.

"Lamentavelmente, ele está obstruindo a ação da Justiça, e em face disso, preso em flagrante delito", diz o oficial de justiça.

Sobre pressão, Amílton tentou mais uma vez e não conseguiu. Comovido, acabou chorando e evitando a demolição.

"Ele veio enviado por Deus", acha Dona Telma.

Seu Amílton foi conhecer a casa que seria derrubada: sala, cozinha, banheiro e dois quartos para abrigar uma família de sete filhos. Dona Telma ainda tem medo de viver o mesmo drama. A ordem judicial pode ser cumprida a partir de segunda-feira.

Seu Amílton diz que em nenhum momento teve a intenção de desafiar a justiça ou desafiar a lei. Foi uma atitude motivada pelo constrangimento. Como cumprir uma ordem para desalojar pessoas tão humildes que não têm outro lugar para morar? A casa de dona Telma é o espelho da casa dele: banheiro apertado, dois quartos e nove filhos para sustentar.

Dona Mariluce diz que levou um susto quando viu o marido na televisão, mas também se sente orgulhosa.

"Eu senti vontade de chorar, e muito orgulho dele tomar essa atitude, como todo mundo que assistiu a televisão. Pessoas até que nem conhecem ele choraram também, se emocionaram", conta dona Mariluce.

Seu Amílton diz que foi o momento mais difícil da sua vida.

"Três vezes eu levantei a concha para avançar em cima da casa, aquilo me doeu. Se eu tivesse derrubado a casa, como era que eu estava sentindo hoje? Eu não teria nem coragem de olhar para os meus filhos. Ali foi Deus, rapaz, que chegou na hora "H" e me tirou daquele pensamento. Eu vi, e me controlei para livrar a casa do pobre coitado. Porque ali era um pobre coitado", emociona-se seu Amílton.

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