QUAL É O SEU SONHO ?
Carlos Pereira

É comum acharmos que a vida poderia ser bem melhor – e poderia mesmo – mas, muitas vezes, este raciocínio é conseqüência direta da comparação que fazemos com a condição dos outros que estão em condição material superior à nossa. Em decorrência deste referencial comparativo, pode-se gerar a frustração ou a ambição desenfreada. Uma e outra atitude são reflexos de desequilíbrio, no entanto, quando verificamos a nossa posição com relação àqueles que possuem menos do que temos, iremos descobrir o quão ricos somos e não percebemos. Mais ainda: quando aqueles menos afortunados do que nós se sentem felizes com o que possuem, fazem-nos despertar mais fortemente para a realidade. Este é o caso de Luis Menezes Pimentel Neto.

Luis é um menino de 12 anos de idade, que mora no interior do Ceará. Pouca roupa para vestir, dormindo numa rede e morando numa casa de pau-a-pique, Luis vive das humildes expensas de sua mãe, uma Agente de Saúde. Sem pai e com dois irmãos pequenos dentro de casa, Luis poderia ser um revoltado com a vida, mas não é. Descoberto por um jornalista da TV Record que cobria o Rally dos Sertões, Luis foi presenteado por um desconhecido distante, lá das bandas de São Paulo, que, sabendo por carta da vontade de Luis ter um livro, enviou-lhe um exemplar de Harry Porter para deslumbramento do pequeno sertanejo.

A entrevista foi emocionante. A começar pelos rascunhos dos desenhos que fazia de um personagem de estória de quadrinhos. O menino parece ter talento pra coisa.

- Quando crescer, você quer ser desenhista? Pretende desenhar o que?

- Qualquer coisa, santo...o que me pedir.

- João Carlos lhe mandou este livro, o que você acha?

- Um gesto de carinho. Uma pessoa que não quer as coisas só pra si, quer dividir com os outros.

- O que você faria se estivesse no lugar dele?

- Eu faria o mesmo que ele. Continuava compartilhar com os outros.

- Você está feliz, alegre, como está seu coraçãozinho?

- Mil por hora. Eu não teria condição pra comprar um livro desse. A gente ganhando...(choro)

- Qual é o seu sonho?

- Meu sonho é terminar meus estudos um dia. Passar a sustentar a minha mãe que, com o tempo, ela vai envelhecendo. Arrumar uma esposa, ter uma boa família. E ajudar a todos. Saber o que eu tiver eu dar aos outros. A gente nunca pensa em ficar com o que a gente tem só pra gente. Se ficar prendendo aquilo nunca vai pra frente. Tudo que você tiver contribuir pros outros. Um dia a gente morre vai ficar sozinho. E você morre, nada vai contribuir. A gente não deve pensar só na gente, também nos outros.

- O que você acha que precisa no Brasil?

- Paz. Amor. Só isso. Organização, também. Muitas poucas pessoas conseguem vencer na vida. Eu sou um pouco feliz. Ninguém é feliz totalmente. Nem todo mundo é perfeito. Eu estou feliz em estar com a minha mãe.

Nestes dias de profundo egoísmo e indiferença, é urgente despertar o Luis que existe dentro de nós e reorientar os nossos sonhos, as nossas metas de vida para a construção de um mundo mais justo e feliz. Reaprender a conjugar verbos como compartilhar, dividir, ajudar e contribuir, que o Luis, mesmo sem a habilidade de concatenar adequadamente o vocabulário e a gramática, sabe mostrar que isso é secundário se não tiver com estes ideais dentro do coração. A mil por hora, de preferência.

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