CHICO XAVIER - O SENHOR DOS ESPÍRITOS

Revista Época - Nº 434, 11/09/06
Por Ivan Padilha
Enquanto sua mão escrevia um dos poemas de seu livro de estréia, Parnaso de Além-Túmulo, publicado em 1932, Chico Xavier dizia que começou a sentir uma forte coceira no olho esquerdo - "como se fossem grãos de areia", descreveria mais tarde. Esfregava a vista, mas não adiantava. Ele mal conseguia distinguir os versos, ainda frescos, que estariam sendo ditados pelo espírito de Casimiro de Abreu. Eram os primeiros sintomas da catarata, ainda sem cura pela cirurgia. Até o fim de seus dias, Chico usaria diariamente um colírio à base de cortisona. O olho direito sofria de um estrabismo divergente pronunciado. Ao longo das décadas, Chico Xavier mudou bastante de aparência. Assumiu os cabelos crespos de sua origem mulata, ficou calvo, usou peruca, adotou boinas, foi obeso, definhou com a pele grudada nos ossos. Mas seus olhos, esbranquiçados e quase sem função, permaneceram como marca registrada.

Mesmo com a visão diminuída pelo cristalino escurecido, Chico dizia ver coisas que as pessoas comuns não conseguem. Dizia conversar com os mortos. Várias religiões falam na vida após a morte. Mas somente o espiritismo se propõe a fazer a ponte com o além. Chico foi o único brasileiro a se tornar o personagem central de uma crença. Os espíritas o consideram tão importante quanto o fundador da religião, o pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido como Allan Kardec. Kardec não dizia falar com os espíritos. Ele transcreveu e sistematizou mensagens que teriam sido recebidas por outros médiuns. O resultado está em O Livro dos Espíritos, a base da doutrina, publicado em 1857. Na votação para o Maior Brasileiro da História realizada por ÉPOCA na internet, Chico Xavier obteve 9.966 votos, ou 36% do total. Ficou em primeiro lugar. Depois do livro de Kardec, as obras de Chico são as mais importantes para o espiritismo. As mensagens que teriam sido recebidas por ele foram publica- das em 409 obras, com tiragem de mais de 25 milhões de exemplares. O único autor nacional a vender mais no Brasil é Paulo Coelho. O espírito Emmanuel, tido como seu principal mentor, teria estabelecido a missão de Chico Xavier: escrever livros, formar leitores e espalhar os fundamentos da doutrina. Nas palavras de Emmanuel, "o livro é a chuva que fertiliza lavouras imensas, alcançando milhares de almas".

Francisco de Paula Cândido, chamado assim em homenagem a São Francisco de Paula, nasceu em 1910 em Pedro Leopoldo, a 35 quilômetros de Belo Horizonte, Minas Gerais. Filho de pais analfabetos, foi considerado louco por dizer na sala de aula textos supostamente soprados por seres de outro mundo. Em certa ocasião, foi desafiado a escrever na lousa uma frase dita pelos espíritos a partir de uma palavra: areia. Os colegas estavam às gargalhadas quando escreveu: "Meus filhos, ninguém escarneça da criação. O grão de areia é quase nada, mas parece uma estrela pequenina refletindo o sol de Deus".

Para espantar o diabo que, diziam, se apossava de seu corpo, ele afirmava que chegou a ter de carregar uma pedra de 15 quilos na cabeça e rezar mil vezes a ave-maria, penitências impostas pelo pároco local. O pai teria, segundo relatos, pensado muitas vezes em interná-lo no hospício de Barbacena. A mãe morreu quando ele tinha 5 anos, e Chico foi criado pela madrinha, Maria Rita, que, segundo relatos, costumava surrá-lo com vara de marmelo e enterrar garfos em sua barriga. Aos 17 anos, ele diz ter começado a colocar no papel as mensagens dos mortos. Para os habitantes da pequena cidade, aquele rapaz tinha um comportamento bastante estranho. Só gostava de rezar, não ligava para futebol, não saía com meninas. Tornou-se espírita e adotou o sobrenome Xavier, do pai, com o qual não havia sido batizado.

Um dia - segundo sua biografia, As Vidas de Chico Xavier, que já vendeu mais de 300 mil exemplares - um amigo de seu pai o convidou para dar uma volta. Sem que Chico Xavier percebesse, foram a um bordel. Muitas prostitutas participavam então de programas de caridade organizados pelo jovem médium. Imediatamente, diz a biografia, todas reconheceram Chico e se puseram a rezar. O prostíbulo se transformou em um centro espírita improvisado. Chico Xavier teria mantido o celibato por toda a vida. Certa vez, quando tinha 32 anos, foi visto de braços dados com uma mulher. Era, diz sua biografia, uma de suas irmãs. "Devo me dedicar à família espírita, à família universal. Não posso ficar preso a uma mulher", costumava dizer.

Graças a Chico Xavier, o espiritismo está mudando - e crescendo. De acordo com o último Censo, de 2000, existem hoje no Brasil cerca de 2,3 milhões de espíritas, sem contar simpatizantes. Dez anos antes, esse número era 40% menor. Trata-se do maior país espírita do mundo, com cerca de 30 milhões de simpatizantes, segundo a estimativa. A expansão se deu principalmente entre as camadas mais ricas e letradas, justamente as que têm acesso aos livros de Chico. Outros espíritas brasileiros se tornaram best-sellers. É o caso do baiano Divaldo Franco, com 220 livros psicografados e 7 milhões de exemplares vendidos, ou Zíbia Gasparetto, com 22 títulos e 4,5 milhões de unidades distribuídas. Mas existem diferenças marcantes. A maioria dos livros de Divaldo tem como tema o autoconhecimento, a psicologia e a parapsicologia. Os textos de Zíbia não têm pretensões literárias. São histórias recheadas de diálogos em linguagem bastante simples. Chico Xavier oferece uma opção muito maior de gêneros literários. Agrada tanto aos espíritas como aos não-iniciados. Por sua obra e seu carisma, é um médium pop.

O espiritismo começou a explodir no Brasil nos anos 70. As ações de Chico Xavier para popularizar a religião foram decisivas. Foi nessa época que ele começou a usar perucas, logo assumiria que era por pura vaidade. Em 1971, Chico participou de duas edições do programa de entrevistas Pinga-Fogo, na extinta TV Tupi. No primeiro, durante mais de três horas, respondeu às perguntas dos jornalistas sobre temas polêmicos, como sexo, cremação, bebês de proveta e reencarnação. No segundo, defendeu os governos militares: "Devemos pedir para que tenhamos a custódia das Forças Armadas, até que possamos encontrar um caminho em que elas continuem nos auxiliando como sempre para que não descambemos para qualquer desfiladeiro de desordem". (Anos mais tarde, receberia Fernando Collor em sua casa.) No final do programa, sua mão escreveu, ao vivo, uma mensagem que estaria recebendo. Foi um sucesso. Cerca de 75% das televisões da cidade de São Paulo sintonizaram a entrevista, reprisada três vezes na íntegra na semana seguinte.

Nos dez anos seguintes, o número de adeptos do espiritismo triplicou. O médium também teve uma coluna na revista semanal O Cruzeiro, que atingia quase 400 mil leitores. Participou de capítulos da novela O Profeta, de Ivani Ribeiro, exibida também na TV Tupi entre 1977 e 1978 - no próximo ano, haverá uma nova versão na TV Globo. A visita de celebridades, como Clodovil, Wanderléa, Fábio Júnior, Roberto Carlos e Xuxa, tornou-se cada vez mais corriqueira. Chico virou até verbete da enciclopédia Delta Larousse. Tentou expandir a religião para além das fronteiras do Brasil. Esteve nos Estados Unidos, na França e em Portugal. Seu êxito foi tímido. Somente agora começam a surgir mais centros espíritas no exterior.

Nos anos 70, Chico foi acusado de favorecer atores e políticos e deixar de atender as pessoas humildes. Também surgiram denúncias de venda de ingressos para visitas. Até o fim de seus dias, Chico recebeu, todos os sábados, milhares de crentes de todo o Brasil. Primeiro em Pedro Leopoldo, depois em Uberaba, para onde se mudou em 1959, quando já era uma celebridade. Nunca se conseguiu comprovar que o médium soubesse da movimentação financeira em torno de seu nome. Seu filho adotivo, Eurípedes Higino dos Reis, chegou a ser investigado pelo Ministério Público. De acordo com a Federação Espírita Brasileira, os direitos autorais dos livros de Chico Xavier, cedidos em cartório, beneficiam mais de 100 mil famílias. Chico Xavier dizia viver da aposentadoria como escriturário do Ministério da Agricultura.

A linha que ele imprimiu à religião espírita, aproximando-a do catolicismo, também favoreceu o aumento do número de adeptos. "Chico Xavier popularizou, por meio de seus livros, a idéia da purificação da alma pelo sofrimento em sucessivas reencarnações, dentro dos preceitos do cristianismo", diz o jornalista Marcelo Souto Maior, autor da biografia As Vidas de Chico Xavier. "Ele construiu um modelo próprio de espiritismo, um modelo católico, baseado na abnegação, no voto de pobreza e nas atividades filantrópicas", afirma a antropóloga Sandra Jacqueline Stoll, da Universidade Federal do Paraná, autora de uma tese de doutorado sobre Chico Xavier, publicada em livro com o título Espiritismo à Brasileira. É fácil compreender a assimilação desse modelo por uma sociedade em que 74% das pessoas se declaram católicas. Para facilitar, o espiritismo é um raro tipo de crença religiosa que não exige exclusividade. Pode ser sobreposta a outra. Alguém pode se considerar a um só tempo espírita e católico.

Marcelo Souto Maior diz também que a popularidade do religioso se deve a uma busca de respostas da sociedade moderna. "Chico Xavier mostrou que é possível viver sem as necessidades que inventamos. Isso fez com que as classes urbanas, individualistas e consumistas, repensassem seu papel. Ele indicou um novo caminho. Para muita gente, deu outro sentido à vida", diz.

As peregrinações até o centro espírita de Uberaba duraram até a morte do religioso. Chico Xavier estava bastante debilitado nos últimos anos de vida. Sofria de angina, uma deficiência de oxigenação no coração, e tomava diariamente um coquetel de vasodilatadores e analgésicos. Quase não conseguia andar - tinha uma campainha ao lado da cama para casos de emergência - e precisava da ajuda de seu enfermeiro, Sidnei, para atividades corriqueiras, como fazer a barba. Devido à falta de visão, ele não pôde assistir à final da Copa do Mundo de 2002, na manhã de 30 de junho. Mesmo assim, quis saber o resultado. Ficou contente ao saber da vitória brasileira. Naquela mesma noite, aos 92 anos, Chico Xavier morreu.

Desde a morte de Chico Xavier, surgiram muitas mensagens atribuídas a ele. Nenhuma foi confirmada. Ele teria deixado um código para identificar a veracidade de uma possível comunicação do além com três pessoas de confiança: seu filho adotivo, a amiga Kátia Maria e o médico e amigo Eurípedes Tahan Vieira. Uma das supostas mensagens de Chico Xavier teria sido recebida por Carlos Bacceli, médium de Uberaba. O espírito do médico Inácio Ferreira, ex-diretor clínico do hospital psiquiátrico de Uberaba, teria revelado a ele que Chico Xavier seria a reencarnação do próprio Allan Kardec, vindo ao mundo para pôr em prática a religião teorizada na vida anterior. A maioria dos espíritas refuta essa teoria, principalmente pela diferença de personalidades. Seria, no entanto, um desfecho surpreendente para a trajetória de um personagem indiscutivelmente fascinante - acredite-se ou não em sua faculdade de falar com o além.

As façanhas do médium

Chico Xavier dizia ter recebido mensagens de mortos ilustres. Alguns exemplos:

O poema censurado
Parnaso de Além-Túmulo, o livro inaugural de Chico Xavier, foi publicado em 1932. Em diversas reedições, a obra foi sendo alimentada por novos poemas. Um deles, chamado "A Guerra", seria do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914). Tem como tema os bombardeios da Segunda Guerra Mundial: A trova geração do ódio e da guerra/Embora a paz suavíssima a conclame/Faz dos homens do mundo amargo e infame/Assanhados carnívoros da Terra. Na edição de 1955, o poema foi cortado. Segundo Chico Xavier, teria sido uma ordem do espírito Emmanuel, que queria privilegiar versos de caráter espiritual.

A música inédita de Noel Rosa
Chico Xavier teria recebido, em janeiro de 1963, uma música inédita de um de seus compositores favoritos: o sambista Noel Rosa, morto precocemente em abril de 1937, aos 26 anos, deixando um legado de mais de cem músicas. As rimas da canção psicografada exaltam Deus e a cidade do Rio de Janeiro: O samba não é pecado, se nasce do coração/Jesus nasceu festejado, no meio de uma canção/Um Rio belo e risonho, canto ainda a serenata/em tuas noites de sonho, em tuas noites de prata. Além do sambista de Vila Isabel, Chico Xavier dizia admirar compositores eruditos como Villa-Lobos, Beethoven e Mendelssohn.

A revelação de Marilyn
Quando esteve nos Estados Unidos, Chico Xavier visitou o Memorial Park, em Hollywood. Lá estava sepultada Marilyn Monroe, morta em 1962 no auge da beleza. A atriz tinha então 36 anos e sua morte foi atribuída à ingestão de tranqüilizantes em excesso. Os boatos na época falavam em suicídio ou em complô - ela teria sido amante do presidente John Kennedy. "Ingeri, quase semi-inconsciente, sob profunda depressão, os elementos mortíferos que me expulsaram do corpo, na suposição de que tomava uma simples dose de pílulas mensageiras do sono", teria dito Marilyn ao médium, segundo descrição do livro As Vidas de Chico Xavier.

As visitas e homenagens de celebridades do mundo artístico alavancaram ainda mais a popularidade do médium mineiro. No ano que vem, sua história deverá virar filme, que será dirigido por Daniel Filho

A bajulação de artistas alavancou ainda mais a popularidade de Chico Xavier. As visitas de celebridades ao médium eram corriqueiras. A cantora Vanusa foi lamentar-se pelo fim do casamento com Antônio Marcos. Clodovil, então um estilista de sucesso, fez um desabafo: dizia sentir-se culpado por cobrar muito caro por seus vestidos. A cantora Wanderléa visitou o líder espírita depois da morte do filho Leonardo, de 2 anos. Dona Risoleta Neves foi recebida quatro meses depois da morte do presidente Tancredo Neves. Dizia querer um sinal do marido morto. Elis Regina, Lima Duarte e Tony Ramos apoiaram a candidatura de Chico ao Prêmio Nobel da Paz, em 1981. O papa João Paulo II e o sindicalista polonês Lech Walesa também foram indicados naquele ano. Ganhou o Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Chico Xavier recebeu ainda a apresentadora Xuxa e os cantores Fábio Júnior e Roberto Carlos. No ano que vem, deverão começar as filmagens de sua história. O roteiro será de Patrícia Andrade, de Dois Filhos de Francisco. A direção será de Daniel Filho.

Chico Xavier já vendeu 25 milhões de exemplares. Só perde no Brasil para Paulo Coelhos

São 409 títulos, entre romances, contos infantis, ensinamentos espirituais e estudos científicos, com 25 milhões de exemplares vendidos. Teriam sido ditados por espíritos como Emmanuel, um senador romano, o médico André Luiz e o poeta Augusto dos Anjos. Castro Alves, Olavo Bilac e dom Pedro II também teriam se apossado do punho do médium para redigir versos inéditos, que estão em seu primeiro livro, Parnaso de Além-Túmulo, de 1932. Chico Xavier começa a ser exportado. Já foram traduzidos 18 títulos para línguas como o inglês, o francês, o espanhol, o japonês, o grego e o esperanto. Em outubro, a Federação Espírita Brasileira negociará a tradução de outros 25 livros com duas editoras alemãs e uma espanhola na feira de Frankfurt, na Alemanha.

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