A VIDA POR UM FIO

Época, edição nº 325, ago/2004

Drauzio Varella, o médico do Brasil,
conta em novo livro as incríveis
transformações vividas por quem
aguarda a morte.

A primeira impressão da morte marcou para sempre o garoto Antonio Drauzio Varella, de 4 anos, o corpo franzino esgueirando-se pela porta do quarto dos pais. A vida de Lydia, mãe do futuro médico mais popular do Brasil, chegava ao fim aos 32 anos, vencida por uma doença muscular degenerativa. Debruçada sobre uma pilha de travesseiros, respirava a longos intervalos depois de meses de agonia. 'No final, o braço dela despencou, a aliança de casamento caiu, correu pelo assoalho e fez três voltas antes de parar.' Na vida familiar e na carreira, o oncologista paulistaníssimo do Brás sempre esteve às voltas com o universo dos doentes terminais, tema do aguardado Por um Fio, que chega às livrarias nesta semana.

O livro é o oposto de Estação Carandiru, que já vendeu 450 mil exemplares e transportou os brasileiros ao cotidiano do maior presídio do país. Em Por um Fio, Drauzio abandona o distanciamento cauteloso da obra de estréia. Não se limita a narrar episódios como um observador sem sangue nas veias. Cai de cabeça, expõe-se e percorre com habilidade a fina linha que separa emoção e pieguice.

'Achei que esse livro só teria sentido se eu me colocasse inteiro dentro dele. Procurei relembrar os sentimentos de cada momento', conta. Nem por isso o autor abusa de adjetivos. O hábil narrador que, em Estação Carandiru, faz o leitor captar o êxtase da malandragem diante do rebolado de Rita Cadillac ou enxergar as ranhuras banais de um copo americano reaparece em Por um Fio.

As histórias dos doentes e de seus conflitos familiares são relatadas com detalhes tão surpreendentes que parecem ficção. Aos 61 anos, Drauzio assegura que foi fiel aos relatos, preservando apenas a identidade dos pacientes. Sua tese central é a de que a notícia da morte iminente opera transformações inesperadas a ponto de tornar alguns pacientes mais felizes do que nunca.

Testemunha das mais desencontradas reações diante do fim anunciado (revolta, surpresa, aceitação passiva, choro convulsivo, riso), em três décadas de atendimento a doentes sem chance de cura, ele confessa que por muitos anos se deixou contaminar pelos sentimentos deles e dos familiares a ponto de ficar emocionalmente imobilizado. Precisava lutar consigo mesmo para não abreviar a conversa e sair de perto.

Suicídio
Desde os anos 70, Drauzio acompanhou milhares de pacientes terminais com câncer e Aids - na era pré-coquetel, perdia cinco deles por semana. Por mais sofrida que fosse a existência dos doentes, apenas dois se suicidaram. Número inferior ao de amigos aparentemente sadios do médico que, nesse mesmo período, desistiram de viver. A explicação, segundo ele, está no apego incondicional à vida, uma força selecionada pela natureza nas gerações que nos precederam. Várias vezes, esse mecanismo de proteção só se revela quando a pessoa toma consciência da proximidade da morte. É o que a encoraja a aceitar a mutilação e as limitações de toda ordem só para se manter viva.

Mesmo quando não existe possibilidade de cura, há muito a ser feito pelos pacientes. Ao contrário do que ocorria há 30 anos, quando os médicos fugiam dos doentes de câncer como o diabo da cruz, a intenção de curar está deixando de ser a função central da Medicina. Drauzio ressalta que, mais do que curar, a missão primordial de seu ofício é aliviar o sofrimento.

'O mais difícil nessa profissão é reconhecer o momento em que a morte é iminente e conduzir o paciente com arte até que a vida se apague', diz.

Celebridade
Não importa onde Drauzio esteja: na classe executiva da melhor companhia aérea ou no banheiro público menos confiável, é sempre solicitado a dar consultas relâmpagos. O médico que virou referência nacional de educação sobre saúde não se abala com as intromissões. Procura oferecer o melhor conselho possível em conversas de um minuto e meio. O que o incomoda são os convites para eventos sociais, aos quais raramente comparece.

O assédio aumentou desde que passou a apresentar no Fantástico, da Globo, séries educativas sobre o corpo humano, primeiros socorros e obesidade e liderou uma cruzada contra o cigarro. O quadro é um dos recordistas de cartas ao programa porque democratizou o acesso à informação médica de qualidade. Muitos dos telespectadores contam que conseguiram parar de fumar ou foram salvos de acidentes graças a seus comentários.

A paixão nacional pelo médico que fala a língua do povo não impede que ele seja alvo de críticas. A série Grávidas, apresentada nas noites de domingo, motivou mensagens nada amistosas em um blog criado na internet. Drauzio foi acusado de conluio com os hospitais para promover cesarianas desnecessárias. 'Não levo esses comentários a sério. Nos dois casos havia total indicação de parto cirúrgico: uma das mulheres era hipertensa grave e a outra dava à luz pela primeira vez aos 42 anos', argumenta.

Divulgador
Falando a milhões de brasileiros pela TV, Drauzio retoma o incansável papel de divulgador que o tornou conhecido nos anos 80. Ao testemunhar em Nova York a devastação imposta pela Aids em 1983, foi o primeiro a alertar o governo Figueiredo sobre o risco de a epidemia chegar rapidamente ao Brasil. A resposta da burocracia: 'Nossas urgências são a esquistossomose e a malária, e não uma doença de homossexuais nova-iorquinos'.

Em pouco tempo sua previsão se confirmou. Convidado por duas rádios paulistanas (a Jovem Pan AM e depois a 89 FM), colocou no ar mensagens sobre a importância da camisinha e o risco das seringas compartilhadas. De tão diretas, as mensagens beiravam a grosseria. Quem ouviu não se esquece: 'Aqui é o doutor Drauzio Varella falando com você, que pega pesado. Todos os que continuarem tomando baque na veia vão pegar o vírus da Aids. Não vai escapar um. Cai fora da seringa, cara, enquanto é tempo. Se você não consegue encarar a vida de cara limpa, fuma, cheira, faz supositório. Mas não injeta na veia, pelo amor de Deus'.

Múltiplos interesses
Drauzio Varella não pára. Onde quer que esteja, começa o dia praticando corrida, sua atividade física favorita. Várias vezes encarou os 42 quilômetros da Maratona de Nova York (em 1994, atingiu sua melhor marca: três horas e 38 minutos), mas neste ano não estará entre os corredores. Falta-lhe tempo para treinar como gostaria.

Apesar da dedicação aos programas de TV, às colunas nos jornais, à literatura, ao site de saúde www.drauziovarella.com.br, o médico passa a maior parte da semana no consultório que mantém em sociedade com o oncologista Narciso Escaleira, seu companheiro desde os tempos em que eram jovens e lecionavam no cursinho pré-vestibular. O nome Objetivo, que daria origem ao maior império de educação privada no Brasil, foi sugerido por Drauzio ao fundador, João Carlos Di Genio. O vínculo com o empresário permanece vivo. A Universidade Paulista (Unip), do mesmo grupo, patrocina seu projeto de pesquisa na Amazônia, que também conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Nos raros intervalos, o médico coordena uma equipe de pesquisadores que coleta plantas brasileiras às margens do Rio Negro. O objetivo é obter extratos para testá-los contra células tumorais e bactérias resistentes a antibióticos.

Família
Marido da atriz Regina Braga há 23 anos e pai de Mariana e Letícia, filhas de seu primeiro casamento, Drauzio experimenta a desconcertante experiência de ser avô. Manuela (filha de Mariana) nasceu há um mês. 'Pela primeira vez a vida deu uma volta totalmente independente de mim. Estou começando a ficar desnecessário', interpreta.

O senso de responsabilidade pela família e pelos irmãos o acompanha desde sempre. Com a morte precoce da mãe e da 'segunda mãe' (a avó materna, quando ele tinha 8 anos), Drauzio passou a zelar pela irmã, Maria Helena, e pelo caçula, Antonio Fernando. O irmão mais novo, também médico, foi seu braço-direito no consultório até 1991, quando morreu de câncer de pulmão. Fumante desde a adolescência, Fernando diagnosticou a própria doença e entregou-se aos cuidados de Drauzio. Os irmãos sentiram na pele os limites da técnica diante da morte anunciada. E foi Fernando quem disse: 'Todo médico deveria passar por isso'.

A imagem do fim
A morte iminente transforma os doentes: alguns até se sentem mais felizes

ÉPOCA - O senhor começou a escrever Por um Fio em 1981 e parou. Por quê?

Drauzio Varella - Aos 38 anos percebi que não tinha maturidade suficiente para escrever um livro desses. Minhas filhas eram pequenas e eu sentia muito medo de morrer.

ÉPOCA - Acha que adquiriu uma compreensão profunda da vida?

Varella - Ainda hoje me sinto imaturo para o tema. O risco da imaturidade é se tornar superficial. Não entrar no âmago das coisas. Esse é um livro para ser escrito aos 90 anos. Como não tenho nenhuma garantia de que chegarei lá, resolvi ir em frente. Por um Fio é o livro que consegui escrever aos 60.

ÉPOCA - O novo livro é o oposto de Estação Carandiru, no qual o senhor narra os fatos com certo distanciamento. Escrever foi mais doloroso desta vez?

Varella - Achei que esse livro só faria sentido se eu me colocasse inteiro dentro dele. Ao lidar com as emoções quase sem freios, corri o risco de me tornar piegas, de o texto ficar emotivo demais. Desta vez, foi mais difícil.

ÉPOCA - Por que o senhor acredita que algumas pessoas vivem mais felizes quando descobrem que a morte se aproxima?

Varella - De tanto ter visto. É um processo muito curioso. Parece que a chegada da morte prepara a pessoa para enfrentar o que está por vir. Quando aceita o inevitável, perde a pressa e valoriza os pequenos prazeres. Quer se sentir à vontade, perto das pessoas queridas.

ÉPOCA - Alguma vez o senhor mentiu a um paciente sobre o diagnóstico?

Varella - Arrependo-me de ter mentido e de ter dito a verdade também. No livro conto uma história emblemática. Quando mentimos ao paciente sobre o diagnóstico, ele se tratou direitinho. Quando contei a verdade, abandonou o tratamento. Fiquei duplamente arrependido. Acho que o médico deve ir até onde o paciente pergunta. Se ele não quer saber, o médico não deve entrar em tantos detalhes.

ÉPOCA - O senhor é a favor da eutanásia?

Varella - No imaginário popular, eutanásia é o momento em que desligamos o respirador. Essa é uma idéia romântica, até porque existem as eutanásias passivas. Hoje no Brasil vivemos uma grande eutanásia passiva. Quando o Estado se esquiva de tratar os doentes, temos uma forma gravíssima de eutanásia.

ÉPOCA - O paciente que quer abreviar o próprio sofrimento tem esse direito?

Varella - É um direito, mas não sei como poderia ser previsto na legislação. Na prática, isso ocorre o tempo todo. O médico pára de insistir no tratamento ou seda o paciente na fase final e o deixa dormindo tranqüilo. É inevitável. Mas a palavra eutanásia é pesada, dá a impressão de que o médico vai tirar a vida do outro. Amedicina serve para aliviar o sofrimento. Mas às vezes aliviar a dor requer uma dose tão elevada de morfina que tira também a consciência do indivíduo. Acho que nunca uma legislação poderá prever todas as situações. ÉPOCA - A aceitação da morte é mais fácil para quem tem fé?

Varella - Na minha vivência, os ateus aceitam melhor a morte. Acham que a vida tem começo, meio e fim. Ninguém opta por ser religioso ou ateu, assim como não escolhemos ser hétero ou homossexual. A sexualidade é o que é. Da mesma forma, a fé existe ou não. Quem tem uma visão materialista do mundo não conseguiria viver de outra forma.

ÉPOCA - O senhor é ateu?

Varella - Se o rótulo é esse, fazer o quê? Não sou religioso. Respeito todas as crenças, mas os religiosos não têm nenhum respeito pelas pessoas sem fé. Quando digo que não tenho religião, acham que sou imoral. É como se eu tivesse parte com o diabo.

ÉPOCA - É verdade que o senhor não se acha uma boa pessoa e não estava interessado em ajudar os bandidos do Carandiru?

Varella - Essa frase mal colocada surgiu na imprensa logo depois da exibição de Carandiru no Festival de Cannes. Disse que decidi trabalhar no presídio por uma motivação pessoal, por curiosidade pelo ambiente de cadeia. Não fui movido por humanitarismo nem por simpatia pelos presos. Falei em inglês e talvez não tenha sido claro. Não gosto dos rótulos que tentam colocar nas pessoas que fazem algum trabalho social. Lembro-me do Betinho, que foi pintado como santo. Ele foi muito mais do que isso, justamente por não ser santo, por ser cidadão.

Tão perto do fim
A experiência da morte anunciada desafia as bases da Medicina e da fé: nem só de remédios precisam os pacientes terminais.

É uma enorme perplexidade para a Medicina: sua própria incapacidade de curar uma enormidade de casos. Médico nenhum se sente confortável com a idéia de ver seus esquemas táticos derrotados dia após dia por enfermidades que não se deixam domar. Confrontados com as próprias limitações (técnicas ou emocionais), muitos se esquivam de doentes próximos do fim. Mas uma visão menos prepotente do ofício está em construção.

Uma nova geração de profissionais da saúde é formada no atendimento de gente sem chance de sobrevivência, que recebe os chamados cuidados paliativos: controle da dor, apoio emocional, preparação da família para o luto. Moldados na convivência com a morte anunciada, descobrem que há muito a ser feito quando recursos terapêuticos se esgotam. Aprendem a lição intuída pela personagem iletrada de Por um Fio, novo livro de Drauzio Varella: mais do que para curar, a Medicina existe para aliviar o sofrimento. 'Com a evolução da técnica, os médicos acreditaram que eram combatentes da morte, só que ela sempre foi vencedora. A grande arte médica é cuidar das pessoas', comenta Maria Júlia Kovács, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

A mudança do padrão centenário de atendimento médico é recente e ainda restrita a poucos centros, mas começa a dar frutos. Uma das mais interessantes iniciativas nesse campo é a Casa de Apoio Hospedaria de Cuidados Especiais, criada pelo Hospital do Servidor Público Municipal, em São Paulo. Inaugurado há dois meses, o casarão confortável localizado no bairro da Aclimação tem capacidade para dez pacientes e seus familiares. A maioria sofre de câncer, mas a hospedaria é aberta a doentes terminais de qualquer enfermidade.

'O objetivo é proporcionar como e onde morrer às pessoas que não podem ser curadas', explica Giovani di Sarno, superintendente do hospital. 'Queremos quebrar um tabu profissional', afirma. O que interessa na casa é a qualidade de vida, e não a quantidade. Além de liberar leitos hospitalares para pacientes com chances de cura, iniciativas desse tipo poupam os doentes da solidão inútil das UTIs.

Apoio integral
Na casa de apoio, a família recebe atendimento psicológico e é encorajada a participar do tratamento. Mesmo depois da morte do paciente, alguns familiares continuam visitando a equipe, com a qual criam vínculos duradouros. Não existe hierarquia no time formado por dois cozinheiros, seis auxiliares de enfermagem, um segurança, duas faxineiras, duas psicólogas, uma assistente social e quatro médicos. É normal encontrar os profissionais executando tarefas inesperadas, como a psicóloga que dá comida na boca do doente e o cozinheiro que ajuda a mover os pacientes da cama.

Os hóspedes da casa não têm possibilidade de cura, mas precisam de cuidados intensivos, sem a necessidade de uma parafernália sofisticada. O máximo da tecnologia disponível são um torpedo de oxigênio e soro para medicação endovenosa.

'Minha filha queria ficar aqui até sarar', conta a dona de casa Maria de Lourdes Santos, mãe de Sílvia, de 47 anos, morta no fim de junho. 'Mal sabia que não iria melhorar', diz. Sílvia sofria de um câncer de mama que se espalhou pelo fígado. Quando foi convidada a se hospedar na casa, quis saber se encontraria passarinhos e flores. Entusiasmou-se ao ouvir o sim. Recebeu outros agrados, como o pudim de leite preparado especialmente para ela e um coelho de pelúcia com laçarote vermelho. Deficiente mental, sabia que tinha uma doença grave, mas ninguém lhe contou que viveria pouco tempo.

A verdade
Revelar ou não a verdade sobre o estado de saúde do paciente é um dos dilemas mais freqüentes. Uma pesquisa realizada com 363 pessoas atendidas no ambulatório ou internadas na enfermaria do Hospital das Clínicas de São Paulo mostrou que a maioria prefere a sinceridade. Nessa amostra, 96% dos homens e 92% das mulheres gostariam de ser informados sobre um suposto diagnóstico de câncer. Se a doença fosse Aids, os índices continuariam semelhantes: 94% dos homens e 91% das mulheres declararam preferir a verdade. Os familiares também deveriam ter acesso ao diagnóstico, segundo o levantamento.

Vale a ressalva: a pesquisa reflete a opinião de pessoas diante da perspectiva hipotética da doença. Nada garante que reagiriam da mesma forma em uma situação real. Na prática, muita gente prefere não tocar no assunto e, mesmo seguindo todo o tratamento, age como se não quisesse receber o diagnóstico. 'Algumas pessoas negam o câncer até o fim', conta o oncologista Drauzio Varella. Passam por uma cirurgia extensa, fazem quimioterapia, perdem os cabelos e continuam se referindo à moléstia como algo sem gravidade. 'Se o paciente age dessa forma, é porque não quer ouvir a verdade, e, nesse caso, para que contá-la?', questiona.

Outros doentes terminais têm plena consciência da situação, mas preferem não comentar detalhes para poupar a família. Como a recíproca é verdadeira, instaura-se um autêntico pacto de silêncio. Na noite de sua morte, a dona de casa Maria Teresinha Geralda da Silva, de 65 anos, pediu que o filho Mário Sérgio fosse cuidar do pai. Ele relutou. Sempre alguém da família fazia companhia à mãe, que havia quatro anos sofria de câncer de fígado. Durante a evolução da doença, Maria Teresinha fez o possível para parecer bem diante dos amigos e parentes. Passou seus últimos nove dias na hospedaria e, no último, Mário respeitou seu desejo. 'Parece que ela sabia que ia morrer e não queria que eu presenciasse', conta.

O atendimento domiciliar das famílias que estão prestes a perder uma pessoa querida tem sido cada vez mais valorizado. O Núcleo de Atendimento Domiciliar Interdisciplinar do Hospital das Clínicas de São Paulo tem atualmente 152 pacientes cadastrados e os atende em um raio de 10 quilômetros de distância. 'Há oito anos, nem a graduação nem a residência preparavam o médico para isso', conta o coordenador Toshio Chiba.'O trabalho é pesado, mas gera muita satisfação', conclui.

O psicólogo José Paulo da Fonseca, autor do livro Luto Antecipatório (Editora Livro Pleno), primeiro do gênero no Brasil, é outro que percorre as residências para ajudar os familiares a aceitar a realidade e encaminhar assuntos pendentes, tanto emocionais como de ordem prática. 'O psicólogo atua como um mediador que ajuda a família a enfrentar a perda de forma saudável. Um luto inibido pode ocasionar problemas psicossomáticos no futuro', explica.

O papel da fé
Na opinião de Fonseca, a aceitação da morte se torna mais fácil para quem tem fé. 'Ela facilita o desapego e a família sente-se reconfortada', acredita. Mas esse apaziguamento depende da idéia de divindade criada pelas diferentes culturas (leia o quadro ao lado) e cultivada pelo paciente e seus familiares. 'A morte é mais complicada para quem acredita em um Deus castigador, um legislador quase jurídico, atento aos pecados e às culpas', explica Maria Ângela Vilhena, professora do Departamento de Teologia de Ciências da Religião da PUC-SP. Para quem acredita na existência do inferno e de uma possível condenação, a morte iminente produz aflição e medo.

Por outro lado, quem considera Deus como a expressão de bondade e misericórdia sente-se aliviado por imaginar que será acolhido depois da morte. Outra forma de encarar Deus é considerá-lo capaz de operar milagres em troca de rezas e promessas. 'As pessoas negam a realidade da morte com uma visão mágica e imatura. Rezam até o fim e, como não são poupadas, se sentem abandonadas', diz. A concepção que mais reconforta os pacientes, na visão de Maria Ângela, é a do Deus solidário com a dor. Aquele que está sempre ao lado do paciente e para quem ele pode pedir força para enfrentar a morte com dignidade.

Faz parte da natureza humana afirmar sua sobrevivência e não aceitar a morte. A religiosidade é uma das formas de negá-la. A maioria das crenças é baseada na idéia de continuidade da vida, seja pela ressurreição, seja pela reencarnação ou por outros processos. Ninguém escapa do instinto de apego à vida e sua perpetuação. Nem mesmo os ateus, que, na falta de uma crença, cultuam a memória de suas realizações. Permanecem vivos ao escrever um livro, fazer um filho ou plantar uma árvore.

A morte para diferentes culturas

A VISÃO DO FIM PARA AS DIFERENTES CULTURAS
A idéia de continuidade depois da morte aparece em várias crenças. Mas cada religião cultura diferentes formas de imortalidade
Religião O que é a morte A espera Rituais depois da morte
Cristianismo É um rito de passagem para uma dimensão atemporal, quando o homem (corpo e alma) é transformado por Deus, o que é chamado de ressurreição. O paciente deve entregar a vida nas mãos de Deus. Evita-se seu prolongamento artificial. Na Igreja Católica, aplica-se nos doentes a unção simbólica com óleo. Mais presentes na Igreja Católica. Nas missas de sete e 30 dias após a morte, busca-se recompor o sentido da vida.
Budismo A morte é renascimento. Se a pessoa praticou boas ações e tem mérito, pode escolher a nova missão na Terra. Do contrário, pode renascer como animal. Hábitos e pensamentos positivos são preparativos para uma boa passagem para a próxima encarnação. Os monges encorajam o discípulo a relembrar boas ações. O corpo é deixado em lugar tranqüilo durante oito horas, para a alma sair. Mantras ajudam o espírito a encontrar o caminho.
Islamismo As almas esperam pelo Juízo Final, quando Deus ressuscitará os corpos para a recompensa ou o castigo eternos. Atos de caridade contam pontos. Um testamento determina o destino dos bens e súplicas tranqüilizam os enfermos e facilitam a saída da alma. A família é encorajada a não demonstrar desespero. A necropsia é proibida. A doação de órgãos pode ser realizada. O corpo é enterrado sem caixão, em posição paralela a Meca.
Espiritismo A desencarnação serve como libertação para o espírito seguir a evolução rumo à plenitude, por meio da reencarnação. Ele retorna à Terra sucessivamente. O espírita aguarda com tranqüilidade o fim inevitável do corpo, com a certeza da imortalidade da alma. É hora de rezar e se desapegar das pessoas, dos objetos e das paixões. O velório deve levar 72 horas, tempo necessário para o desprendimento total do espírito. A doação de órgãos é valorizada.
Judaísmo Para os ortodoxos, o Messias ressuscitará os mortos. Na visão dos liberais, a idéia é figurativa: a imortalidade é a perpetuação das ações do falecido. O rabino prepara a família e o enfermo para aceitar a vontade de Deus. Não há ritual religioso enquanto o paciente vive. Atos que possam apressar a morte são proibidos. A necropsia não é permitida. Sete parentes próximos rasgam uma parte da roupa para mostrar a dilaceração do coração.

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