A Teoria do Universo Eterno e em Mutação

Isto É, edição nº 1807/2004

Contramão premiada.
O físico carioca Mário Novello recebe título na França pela idéia
de que o Universo é eterno e está em constante mutação.

No dia 24 de junho, o físico carioca Mário Novello vai receber o título de doutor honoris causa da Universidade Claude Bernard, de Lyon, na França. O último físico a ser indicado para tal deferência foi o russo Andrei Sakharov (1921-1989), inventor da bomba H e o mais famoso dissidente da extinta União Soviética. Aos 62 anos, Novello comemora a honraria como a coroação da tese de que o Universo é eterno e dinâmico, que defende há muitos anos, na contramão do pensamento hegemônico que atribui o início de tudo a uma grande explosão cósmica, o Big Bang. "Esse título não caiu do céu. Somos oito pioneiros em cosmologia, com 30 anos de trabalho. A indicação é para todos nós", diz, sem falsa modéstia, referindo-se ao seu grupo de trabalho no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

Casado, pai de dois filhos e avô de dois netos - um deles flamenguista, para seu desgosto de torcedor do Fluminense -, Novello é de uma brilhante geração de físicos que foi abafada pelo garrote do AI-5. Só não foi caçado porque seu professor, José Leite Lopes, conseguiu uma bolsa na Suíça, onde Novello se dedicou ao estudo de cosmologia e gravitação. O pesquisador lamenta a contínua falta de apoio do governo federal à física fundamental, uma das bases da ciência. A prova é a paralisação do apêndice brasileiro do Centro Internacional para Astrofísica Relativista (Icra, na sigla em inglês), que colocaria o Brasil na vanguarda da pesquisa cósmica.

Embora aponte como acidental a explosão que, no ano passado, matou 21 pessoas na base de lançamento de Alcântara, no Maranhão, Novello não esconde seu estranhamento sobre o resultado das investigações. Afirma que os interesses dos americanos na base brasileira envolvem muito dinheiro. "Como Alcântara fica mais perto do Equador do que o Cabo Canaveral, de onde os Estados Unidos lançam seus foguetes, o custo da operação no Brasil é muito mais barato, porque gasta menos combustível", enfatiza. Ele também alfineta as exigências americanas de inspeção ao processo de beneficiamento de urânio, desenvolvido no Brasil: "O que eles querem é tentar impedir a venda de nosso sistema a outros países."

ISTOÉ - Qual o papel da cosmologia?
Novello - É a primeira vez que o ser humano usa a razão para apresentar um cenário da criação. A cosmologia tenta explicar de onde vem o que existe, no contexto de que a força mais importante do Universo é a de gravitação (que atrai um corpo celeste a outro).

ISTOÉ - O que levou ao reconhecimento de seu trabalho por uma universidade francesa?
Novello - Tudo começou por causa do livro Cosmos e contexto, lançado na França em 1987. Na ocasião estive em várias editoras no Brasil e nenhuma se interessou. Traduzi o texto para o francês e encaminhei à editora Masson. O livro foi aprovado e está esgotado. Nele, defendo a tese do Universo eterno e dinâmico, que vai de encontro à tese de que tudo começou com o Big Bang, sem explicações sobre o que houve antes.

ISTOÉ - Qual a diferença entre as teses do Universo eterno e a do Big Bang?
Novello - Em 1931, o cônego belga Georges Lemaître defendeu a tese de que o Universo surgiu de um gigantesco núcleo atômico, ou átomo primordial. Ao se desintegrar, esse átomo teria desenvolvido o Universo. Em 1948, o astrônomo russo George Gamow, naturalizado americano, afirmou que o estado inicial do Universo seria uma sopa cósmica de partículas contendo radiação eletromagnética. Houve um instante em que a distância entre essas partículas seria zero e a temperatura, infinita. Nesse momento, segundo ele, há 13 bilhões de anos, ocorreu uma explosão, o instante zero do Big Bang, que teria desencadeado a expansão do Universo. Nessa teoria não houve colapso, como na tese do Universo eterno, mas só expansão.

ISTOÉ - Por que a teoria do Big Bang fez mais sucesso do que a do Universo eterno?
Novello - A idéia do Big Bang tomou conta da cosmologia nos anos 70 e 80. Os cientistas transmitiram as informações à mídia, que tratou de divulgá-las como se fossem uma verdade definitiva. Como os Estados Unidos eram vanguarda nesta idéia e passaram a defendê-la, a teoria se tornou hegemônica. A Igreja também declarou que o Big Bang estava de acordo com a Bíblia. A idéia do Universo eterno se alastrou na Europa e, a partir dos anos 90, atraiu cada vez mais adeptos.

ISTOÉ - Como se explica o Universo eterno e dinâmico?
Novello - Em um passado muito remoto teria ocorrido uma instabilidade do que os cosmólogos chamam de vazio quântico, que é uma complexa combinação de matéria e antimatéria, opostos que interagem e se anulam. É um processo que ocorre em milésimos de segundos e pode ser detectado. Essa instabilidade fez com que o Universo entrasse em colapso, num processo de redução de seu volume até chegar próximo a zero. A partir desse ponto, do quase zero, começa a surgir a matéria. Daí em diante, o Universo volta a entrar em expansão, que é a fase que estamos vivendo hoje.

ISTOÉ - Qual a diferença entre a tese do Universo eterno, que o sr. defende, e a de Isaac Newton?
Novello - Newton defendia o Universo eterno e estático. O século XX rompeu com as estruturas estáticas do físico inglês. Nosso modelo estabelece que o Universo é eterno, mas dinâmico, em constante mutação.

ISTOÉ - O sr . acredita em Deus?
Novello - Acho uma arrogância imaginar que o Universo não possa ser entendido como uma estrutura divina. Não tenho fé religiosa e acho interessante quem possa ter. Gosto de pensar que Deus é o próprio Universo e que somos uma coisa só, uma única estrutura, o estofo comum para tudo com formações diferentes e regionalizadas.

ISTOÉ - É possível fazer uma viagem no tempo?
Novello - Em nossas vizinhanças planetárias é impossível, porque o campo gravitacional é fraco. Um corpo poderia voltar ao passado quando chega perto de buracos negros, fenômeno em que uma estrela implode e tem um campo gravitacional tão forte que nada sai dela, nem a luz. Ou então próximo aos worm holes (buracos de verme), fenômenos nunca vistos, e consequência da matemática da teoria da relatividade, de Albert Einstein. Atingir um desses fenômenos cosmológicos seria impossível para a atual velocidade de nossos foguetes. Abordo esse tema em meu livro O círculo do tempo, editado pela Editora Campus e esgotado. Ainda no primeiro semestre sairá uma segunda edição pela editora Jorge Zahar.

ISTOÉ - Em 1999, seu grupo foi o único da América Latina escolhido para ser o centro de pesquisa astrofísica no Brasil. Por que a idéia não foi adiante?
Novello - O grupo já existe e o espaço físico poderia ser dividido com o do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), na Urca (zona sul do Rio), onde todos trabalham. O problema é burocrático. Seria um custo muito baixo (R$ 250 mil por ano), mas o atual governo não parece interessado. O ex-ministro de Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, chegou a anunciar a criação do Icra-br a uma platéia de 400 pessoas de 82 países. Mas os secretários de seu sucessor, Eduardo Campos, parecem não se interessar pela idéia.

ISTOÉ - Qual seria a vantagem para o Brasil de entrar nesse seleto grupo?
Novello - O Icra é formado por nove países, a maioria europeus, e viabiliza o acesso de cientistas à rede que disponibiliza dados de observação captados por satélite. Também dá acesso a informações sobre pesquisas fundamentais ao desenvolvimento tecnológico. Com o Icra-BR, seríamos participantes de um dos mais importantes grupos internacionais de cosmologia e astrofísica.

ISTOÉ - Como o sr. avalia o governo Lula na área científica?
Novello - O que precisamos é de continuidade administrativa. Achei ruim a troca de ministros por razões políticas. Necessitamos de investimentos em ciência fundamental, o que não está acontecendo. Em 2003 foi anunciada uma atualização das bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que não ocorria havia dez anos, benefício que não contemplou o pós-doutorado. Cientistas como eu não recebem aumento real há mais de 15 anos. Sabemos que o problema não é falta de dinheiro.

ISTOÉ - O sr. foi caçado durante o regime militar?
Novello - Não cheguei a ser caçado, porque saí do Brasil em 1969. O físico José Leite Lopes era meu professor e conseguiu para mim uma bolsa para a Suíça, onde fiz meu doutorado. Leite Lopes era diretor científico do CBPF e, junto com os físicos Elisa Frota Pessoa e Jayme Tiomno, foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5. Eu tinha acabado de fazer mestrado e ficou claro que não se poderia realizar pesquisas sérias por aqui. Nesse momento, o Brasil dava uma guinada parecida com o momento atual.

ISTOÉ - Que guinada foi essa?
Novello - Assim como o Icra-br está paralisado, deixou-se de lado a pesquisa fundamental. Dizia-se que precisávamos de física aplicada, de consequências práticas para o desenvolvimento do País. Houve um incentivo para a física de estado sólido, que trata mais do comportamento da matéria e promoveria uma interface entre a ciência e a indústria. Passados 30 anos, vê-se que essa opção foi uma balela. Mais da metade dos físicos brasileiros estuda o estado sólido, o que não trouxe nenhuma inserção ao desenvolvimento da indústria nacional. Nossa indústria funciona com base nos royalties e o que adicionamos aos produtos não tem quase nada de tecnologia brasileira. É um problema de natureza política. Dizia-se que nunca teríamos competência para competir com os países de Primeiro Mundo, mas eles começaram do zero. Podemos não chegar lá em cinco, dez anos, mas, em 40 anos, por que não?

ISTOÉ - O sr. sofreu alguma represália durante a ditadura militar?
Novello - Na década de 70 houve tanto incentivo à física de estado sólido que um físico, cujo nome prefiro preservar, foi à Europa e me disse que, se eu não mudasse minha orientação científica, minha bolsa seria cancelada. Mas havia outro professor brasileiro em Genebra, Roberto Salmeron, do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, que mandou uma carta às autoridades dizendo que meu trabalho estava bem encaminhado e achava absurdo reorientar a pesquisa sobre gravitação e cosmologia. Não havia ninguém estudando essa área no Brasil. Graças a essa carta, minha bolsa foi mantida.

ISTOÉ - Qual a importância do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas?
Novello - No passado, o CBPF, que tem 51 anos, irradiou a ciência brasileira. No entanto, tivemos 15 anos de administração catastrófica. Qualquer instituto que mantenha o mesmo comando por tanto tempo seria ruim para a pesquisa. Um de nossos problemas graves é a falta de sangue novo. Por várias razões históricas o CBPF não teve um projeto institucional, que estabelecesse prioridades. Como o Ministério da Ciência e Tecnologia não parece disposto a apoiar a ciência fundamental, tudo indica que a próxima administração vai perpetuar esse quadro.

ISTOÉ - Existem no Brasil outros centros de pesquisa que contribuam para a evolução científica nacional?
Novello - Há o grupo de biofísica, que há cinco anos detectou as influências magnéticas em bactérias, uma descoberta de repercussão internacional. A equipe de altas energias, que estuda como a matéria é constituída, participou de uma cooperação Brasil-EUA, em Chicago, que descobriu, há quatro anos, um dos quarks, que é uma partícula elementar da matéria. Existe também o grupo de matéria condensada, que estuda, em particular, as propriedades magnéticas.

ISTOÉ - Apesar da falta de incentivo, o Brasil é um exportador de cérebros. Como isso se explica?
Novello
- Os cientistas caçados pelo regime militar eram de altíssimo nível e formaram bons profissionais. Mas é uma área pessimamente remunerada, por questões políticas. Significa que o Estado não acha a ciência fundamental, importante. Um pesquisador brasileiro ganha R$ 4 mil por mês, é uma vergonha. Até hoje a metade de meu salário vem de bolsa de pesquisa, que deveria ser um prêmio. O gasto do Brasil com ciência é irrisório, estamos atrás da Coréia e da Tailândia. Ainda assim temos cérebros, que se formam aqui ou no Exterior.

ISTOÉ - Os americanos criaram um caso diplomático por causa do enriquecimento de urânio. O que está por trás disso?
Novello
- Os EUA nem sequer obedecem ao critério de inspeção independente da Agência Internacional de Energia Atômica, de Viena. É puro chauvinismo. Embora os alemães não tivessem repassado tecnologia de enriquecimento de urânio, criamos uma centrífuga que está em cima de um colchão magnético, barateando o processo. E essa forma de gerar energia não tem nada a ver com bomba atômica. Os americanos querem é tentar impedir a venda de nosso sistema a outros países.

ISTOÉ - Qual sua interpretação do acidente ocorrido na base de Alcântara?
Novello - Achei muito estranha a morte de 21 pessoas. O relatório diz que foi acidental. Mas houve um acordo do ministro Roberto Amaral com a Ucrânia que, ao contrário dos EUA, quer nos repassar tecnologia estratégica. Alcântara, no Maranhão, é muito melhor que o Cabo Canaveral, na Flórida, porque está mais perto do Equador e proporciona lançamentos com menos gasto de combustível.

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