Fernanda Vogel: Misteriosas coincidências

Isto É Gente, edição nº 219/2003

A mãe da modelo morta em 2001, em acidente no helicóptero do empresário João Paulo Diniz, no litoral norte de São Paulo, conta a tragédia em um livro e ainda narra eventos intrigantes que precederam a morte da filha

Durante o ano de 2001, o programa de televisão predileto da comissária de bordo Myrian Vogel, 47 anos, era a novela Porto dos Milagres. Sua personagem preferida na trama era a engraçada Amapola, vivida por Zezé Polessa. Se estivesse em casa, não perdia por nada as cenas com a atriz, mas na sexta-feira 27 de julho foi diferente. Diante da tevê, na hora da novela e com Zezé em cena, Myrian foi tomada por uma angústia que a fez mudar de canal. Em outra emissora, um plantão jornalístico informava sobre a queda de um helicóptero no mar. “Antes de ouvir a notícia sabia que era o helicóptero da minha filha”, conta a comissária, no livro Fernanda Vogel na Passarela da Vida (editora 7 Letras, 252 págs, R$ 38), da jornalista Tammy Luciano, que será lançado na terça-feira 21, no Rio de Janeiro. O episódio é uma das muitas coincidências intrigantes que permeiam o acidente e a morte, aos 20 anos, da modelo Fernanda Vogel.

Entre mensagens da modelo, transmitidas por freqüentadores de centros espíritas após sua morte, e eventos que pareciam anunciar a tragédia (leia mais aqui), Myrian juntou histórias que a ajudaram não só a colaborar com o livro de Tammy, como a se recuperar da perda da filha na queda do helicóptero em que Fernanda viajava ao lado do namorado, o herdeiro do Grupo Pão de Açúcar, João Paulo Diniz. O casal iria comemorar os dois meses de namoro na casa da família Diniz em Maresias, litoral paulista, mas o mau tempo derrubou a aeronave. O piloto Ronaldo Jorge Ribeiro também morreu no acidente. O co-piloto Luiz Roberto de Araújo Cintra e João Paulo conseguiram nadar até a praia.

Na época, João Paulo chegou a ser acusado de induzir o piloto a voar apesar da má condição meteorológica. A sus- peita é descartada pela própria Myrian. “O João foi uma ví- tima também. Ele estava no helicóptero e nunca se colocaria em risco”, diz a comissária, que nega ter havido qualquer desentendimento com as famílias Vogel e Diniz. “Falo sempre com o João. O que existe é uma tragédia em comum, nenhu- ma divergência”, afirma.

Prova de que não há problemas no relacionamento da mãe de Fernanda com o herdeiro do grupo Pão de Açúcar será o lançamento do livro em São Paulo, marcado para o dia 4 de novembro, na Revistaria D'Amauri, novo empreendimento de João Paulo, com inauguração prevista para os próximos dias. Para o empresário, o apoio de Myrian foi fundamental nos primeiros momentos após o acidente. “Ela me abraçou logo que me viu, ainda em Maresias. Vinda da mãe da Fernanda, a ajuda foi a melhor que eu poderia ter recebido naquele momento”, disse João Paulo a Gente.

INDENIZAÇÃO

Pela morte de sua filha, Myrian recebeu o montante coberto pelo seguro do helicóptero. Ela prefere não revelar os valores, mas garante que, apesar das notícias veiculadas nos primeiros meses após a tragédia, não houve qualquer disputa judicial por uma indenização maior. “Preferi não desmentir o que saía nos jornais porque não estava em condições. Se fizesse isso ia mexer ainda mais com o assunto que me machucava tanto”, lembra a comissária.

A primeira conseqüência do choque pela morte da filha foi ficar sem comer. Nos três primeiros dias após o início das buscas pelo corpo de Fernanda, Myrian ingeriu somente café, além dos muitos cigarros que fumou. “Achava que se eu conseguisse ficar aquele tempo sem comer, minha filha também conseguiria, e estaria viva quando fosse encontrada.” A partir do terceiro dia, a família a convenceu a tomar sorve- te e sucos, já que a lembrança de Fernanda no mar a impedia de ingerir qualquer alimento salgado. Mesmo assim, ela teve de tomar soro. “Dávamos de colher, na boca dela”, conta a irmã caçula de Myrian, Bebel Vogel.

Nas três primeiras semanas após o desaparecimento da filha, a comissária continuou tomando soro para suprir a alimentação insuficiente. Perdeu oito quilos em menos de um mês. “Minha irmã se autoflagelava, enfiando as unhas dos indicadores nos polegares. Ficava o tempo todo no sofá, em posição fetal e agarrada a um bicho de pelúcia da Fernanda”, lembra Bebel.

Profissionalmente, a primeira conseqüência da tragédia foi a licença da função que exerceu durante 23 anos. Myrian não voa desde a morte da filha e deve tirar o seguro pela perda definitiva da carteira de aeronauta. “Cada vôo é uma tripulação, são amigos diferentes. A emoção é complicada e como chefe de equipe tenho que ter o vôo na mão. Emocionalmente instável, não posso assumir a responsabilidade”, explica. Também mudou de endereço. Deixou o sítio de Itaboraí, no interior do Rio de Janeiro, onde morou desde que Fernanda tinha 12 anos, e se instalou num apartamento na zona sul carioca. “Lá tinha a distância da família, as recordações e os problemas de cidade pequena. Em qualquer supermercado que entrava tinha um silêncio, depois um falatório baixo e as cabeças se virando na minha direção. Era complicado”, diz.

MENSAGEM ESPÍRITA

Quando começou a se recuperar, Myrian adquiriu o hábito de navegar pela internet em busca de notícias antigas da filha, numa forma de reviver os melhores momentos da modelo e de suprir a própria carência. Foi assim que encontrou, em março do ano passado, um texto sobre Fernanda que lhe chamou atenção. Da correspondência com a autora, Tammy Luciano, surgiu a idéia do livro, do qual Myrian participou ativamente. “Isso me deu forças para enfrentar minha perda”, conta a mãe da modelo. Apesar da recobrar o ânimo, só um ano após começar a trabalhar no livro conseguiu interromper um hábito adquirido com a morte da filha: o de ligar para o celular de Fernanda para escutar o recado da caixa postal que permanecia gravado com a voz da modelo. “Era absurdo, mas eu tinha a necessidade de ouvir a voz dela”, justifica.

Outro alento veio das oito mensagens recebidas de dois centros espíritas no Rio. Em todas elas, algumas enviadas por uma professora de Fernanda na época do primário, a modelo dizia estar bem e conformada com seu destino. A comissária tem absoluta certeza da veracidade de pelo menos um dos recados, em que a filha se refere às violetas e margaridas plantadas pela mãe no peitoril da janela de seu apartamento. “Ninguém do centro tinha ido à minha casa”, afirma Myrian.

Católica, a mãe de Fernanda diz não ter coragem de presenciar as manifestações nos centros, mas as considera reconfortantes. “É um remédio para a alma. Um alívio para outros pais que perderam seus filhos, porque mostra que existe a continuidade”, afirma a comissária. É no livro, portanto, que Myrian espera passar a idéia de que a filha está bem. E para escrever a história de Fernanda, contou com a ajuda dos amigos, colegas e das pessoas mais importantes da vida da modelo.

Uma delas, o empresário Ike Cruz, que foi casado com Fernanda, é quase um filho para a ex-sogra. Desde a morte da ex-mulher, manteve o hábito de passar todo Natal na casa da família Vogel. “Me ajuda a superar a perda, saber que fiz, e ainda faço, parte de uma família. A Fernanda foi importante pra mim no campo pessoal e profissional. Saí da casa dos meus pais pra morar com ela. Ver a felicidade da Myrian hoje é prioridade pra mim”, disse Ike à Gente.

Separada desde janeiro do segundo marido, Jorge, pai de seu filho caçula Eduardo, 14, e que cuidou de Fernanda desde os 6 anos, Myrian ainda faz duas sessões semanais de terapia e toma remédios para conviver com a dor da perda da filha. Ela já decidiu que parte da renda do livro será destinada a uma instituição de caridade. É uma das maneiras que encontrou para pôr em prática seus novos objetivos de vida. “Quero agora transformar a dor em amor. Homenagear a Fernanda e fazer o bem.”


Trechos do livro

Espiritualidade: “Entre setembro e outubro de 2001, você não tem mais nada a ver com essa vida daqui de agora, nem com essas angústias, nem com as pessoas que circulam em torno de você.” Mapa astral de Fernanda Vogel feito em dezembro de 2000 pela astróloga Márcia Britto. “O período entre 10 de março e 25 de agosto de 2001 foi interpretado no mapa como sendo de cortes e rupturas. Márcia pediu atenção com acidentes, cortes, queimaduras e acidente de carro. Apesar disso, ela acrescentou serem os melhores momentos da vida de Fernanda, com muita sensibilidade, intuição, sabendo aonde ir, com quem, tudo no momento certo. Márcia disse para Fernanda não se preocupar, a viagem seria fantástica.” Acidente: “Um tempo depois, João nadou, não a viu, chamou novamente. Fernanda não respondeu. Ele foi buscá-la, imaginando que a encontraria mais uma vez concentrada em seu ritmo de nado. Não a viu mas escutou sua voz na direção da única luz do lugar. Pensou ter nadado rápido demais e passado do lugar onde a modelo estava. Voltou para encontrá-la, mas não a encontrou. Começou a sentir medo de perdê-la. Passou a gritar seu nome. Fernanda! Fernanda! A voz de antes não responderia mais. Agora, era ele, a chuva e um silêncio enorme, infernal, maldito.”

Mãe: “Ninguém sabia direito como Myrian reagiria ao constatar a partida da filha: 'Ela caminhou atordoada para o quarto e resolveu tomar um banho. Eu pedi calma, disse que não sabiam se era ou não o corpo da Nanda. Fiquei com medo da atitude que minha irmã poderia tomar', fala Bebel. A preocupação foi tão grande, que a minifarmácia do banheiro foi esvaziada pela irmã mais nova. A mãe de Fernanda não pensou em fazer nada, queria apenas chorar no chuveiro, sozinha. E assim o fez. Chorou muito. De repente, a realidade declarava guerra, mostrava as garras, levando sua única filha. E ali, nua, chorou, desabafando os dias de dor. Não sabia mais para que lado nadar, o que dizer. A história do acidente era incoerente com tudo que havia desejado para Fernanda.”


Cinco histórias intrigantes da Fernanda

Myriam com um desenho pintado por Fernanda sete meses antes da tragédia: ela se retratou como uma sereia sob a chuva.

BÍBLIA – Um mês antes do acidente, João Paulo Diniz estava com Fernanda no Carlton Arts, em São Paulo, quando foi abordado por um garçom. Ele disse a João Paulo que o empresário estava muito afastado da religião e o aconse- lhou a ler um determinado texto da Bíblia. Em casa, o casal leu o trecho onde estava escrito que viria a tormenta, quatro pessoas estariam no moinho, duas seriam levadas e duas seriam poupadas. Sem dar muita atenção na ocasião, João Paulo voltou a ler o trecho após o acidente. Só aí identificou as pás do moinho como a hélice do helicóptero, a tormenta como a chuva que causou a queda da aeronave, e as duas pessoas levadas como Fernanda e o piloto Ronaldo Jorge Ribeiro, também morto no acidente, enquanto João Paulo e o co-piloto Luiz Roberto de Araújo Cintra sobreviveram.

SONHO – Na madrugada do sábado 28 de julho de 2001, para o domingo 29, um amigo de Fernanda teve um sonho, no qual a modelo aparecia, envolta numa luz, pedindo para que ele tranqüilizasse sua família, e avisando que seu corpo apareceria no dia 3 de agosto, o que acabou acontecendo.

DESENHO – Myrian recebeu de Ike dois canudos idênticos com papéis de Fernanda. Confundiu-se e abriu o mesmo canudo duas vezes, achando que tinha aberto os dois, e viu apenas fotos de uma campanha da filha. Dias depois, procurava lembranças da filha para incluir no livro quando um dos canudos caiu de um móvel aos seus pés. Dentro dele estava um desenho feito por Fernanda em que ela se auto-retratava como uma sereia, numa noite de chuva no mar. A data do desenho era de 27/12/00, exatamente sete meses antes do acidente.

AGENDA – Na bolsa de Fernanda encontrada no helicóptero, seis meses após o acidente, estava a agenda dela. Um modelo simples, com as folhas presas numa encadernação normal, e não soltas como num fichário, a agenda só ia até o fim do mês de julho de 2001. Depois dessa data, não tinha mais nada, nem qualquer sinal de que folhas tivessem sido arrancadas.

TEXTO – Também na bolsa de Fernanda foi encontrada uma folha de papel cujas bordas estavam destruídas, mas o texto no interior permanecia intacto. O título do texto era “Sobrevivência”.

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