Um ano sem Chico Xavier

Isto É Gente, edição nº 204/2003

A herança do médium

Na segunda-feira 30 completa um ano da morte de Chico Xavier. Ele foi homenageado com um mausoléu de mármore, sua casa em Uberaba virou museu e seus trabalhos sociais seguem intactos

Uma luz de fim de tarde ilumina a fila de crianças na porta de uma casa simples em Uberaba (MG). É quinta- feira e o relógio ainda não bateu 18h. Os mais velhos seguram os irmãos menores no colo. Outras crianças, miúdas e sozinhas, se firmam de braços cruzados e pés juntos na calçada de cimento gasto. Os adultos chegam aos poucos e se juntam à meninada. Uns tiram o chapéu em respeito ao local, outros estão arrumados, muitos são maltrapilhos. O motivo que leva cerca de 500 pessoas, toda quinta-feira, à Casa da Prece é um só: um prato de comida. O mesmo prato que Chico Xavier, o maior médium do Brasil, pediu que seus companheiros continuassem servindo no tradicional jantar da Fundação Casa da Prece. Vivo espiritualmente para seguidores dos seus ensinamentos, o legado dele continua visível para quem visita Uberaba, onde Chico Xavier morou da juventude até morrer, aos 92 anos, no dia 30 de junho do ano passado.

“Estamos dando continuidade a tudo. A única coisa que falta, e que não podemos ter por enquanto, são as mensagens que ele escrevia”, diz Kátia Maria, 38, diretora de assistência social da Casa da Prece. Criada pelo médium, ela tornou-se amiga fiel de Chico Xavier e cuidou dele até os últimos dias. Ela estava ao lado dele quando o médium faleceu e foi uma das pessoas responsáveis pela transformação da casa de Chico numa espécie de museu. Está tudo no lugar, como se ele lá estivesse.

Há cinco anos, o jantar, preparado por 11 voluntárias, alimenta com fartura todos os necessitados. Em sua última semana de vida, Chico compareceu ao jantar – algo raro em função de sua saúde – e pediu que esse trabalho não fosse interrompido. Aos sábados, 500 pães, caixas de bolacha e brinquedos são distribuídos. Às 14h, acontece o trabalho de passe (uma cerimônia espírita). Amigos de longe, empresários e personalidades conhecidas, como o ator Caio Blat, distribuem donativos. “Às vezes faltam coisas e a gente compra. O que não pode é faltar comida”, diz Kátia. O dinheiro que a Casa da Prece recebe de doações está sendo utilizado para reformar as instalações: a cozinha foi ampliada, um consultório odontológico foi montado e um centro médico está projetado para ainda este ano.

Ao lado de Eurípedes dos Reis, filho adotivo de Chico Xavier, Kátia é uma das fervorosas defensoras da memória do médium. Foi uma das pessoas que solicitaram à Prefeitura proteção extra para o túmulo do espírita. “Ele havia pedido 72 horas de vigília, mas precisamos de proteção diária já que tentaram violar o túmulo dele”, conta. A Polícia Militar vigiou dia e noite o local, até ser construído um mausoléu em mármore com vidro blindado, dois meses após o enterro. “Chico comentou que seria interessante construir um mausoléu para o espírita Eurípedes Barsalufo, que morava em Sacramento (RS). Lembrei-me disso depois da morte dele e decidimos fazer para ele também”, conta Oswaldo Godoy, presidente do grupo espírita André Luiz e editora André Luiz. A lage, com espaço coberto para orações em dias de chuva, abriga uma estátua de bronze de Chico autografando livros, um busto dele e, do outro lado, uma das mãos, para que as pessoas toquem e deixem mensagens.

“Sempre fui o pára-choque do Chico”

Filho de criação de Chico Xavier, o dentista narra os últimos momentos de vida do líder espírita e fala das acusações de desvio de verba e agressão ao pai que sofreu.

O dentista Eurípedes Higino dos Reis, 53, foi o grande companheiro de Chico Xavier. Ainda garoto ficou sob cuidados do médium e, quando adulto, passou a cuidar do pai adotivo, com quem morou até o final da vida. Eurípedes passou por maus momentos ao ser acusado pela ex-mulher, Christine Schulz, de agredir Chico. Sofreu outro baque quando recaiu sobre o casal a suspeita de desviar verbas de caridade do centro espírita. Há dois meses, o processo foi suspenso pela promotoria, primeira medida antes ser arquivado, e Eurípedes voltou a gozar da paz, embora com o coração apertado de saudades do pai.

Como têm sido esses dias perto da data de um ano de morte de Chico Xavier?

A saudade aumenta a cada dia. Ficou uma lacuna que não será jamais preenchida com toda a fé que a gente tem em Deus e nos nossos mentores espirituais.


Como Chico preparava vocês para a morte dele?

Ele sempre foi uma pessoa de uma presença muito grande. Tinha uma atitude de pai e amigo, mas no último ano, estava bem mais apegado conosco. Quinze dias antes de partir, ele voltou a freqüentar o local do jantar onde alimentamos pessoas às quintas-feiras e pediu para as senhoras que lá trabalham – a Josélia, a Kátia, a Maria Elisa e tantas outras – que não deixassem aquele trabalho nunca porque aquele trabalho era dos espíritas. Ele tinha muito amor à causa e ao trabalho que é desenvolvido. Disse às senhoras que aquelas pessoas sempre esperariam por aquele jantar, não só pela alimentação em si, mas pelos momentos de paz que todos passavam e ainda passam.


Lembra-se de algum fato corriqueiro que mostra esse apego?

Sempre que saía de casa eu dizia: “Chico, até logo!”. Nos últimos três meses, principalmente, ele respondia: “Não, não vai não que eu ainda quero assistir ao telejornal com você”. Sabe o jornal da Globo da hora do almoço? Ele ia para a sala onde tem uma televisão maior e ficava de mãos dadas comigo. Era uma tentativa de retardar minha saída. À noite, quando ainda estava passando O Clone, ele falava: “Ah, vamos ver a novela? Vamos conversar?” Ou então: “Vamos dar uma volta de carro? Você tem tempo?”. Numa quinta-feira, um dia que eu estava lá no jantar, ele disse que queria ir muito deitar na minha cama e me aguardar lá. Aí a Kátia (amiga de Chico e diretora de assistência social da Casa da Prece) nos telefonou e voltei na hora. Cheguei no meu quarto e ele disse que estava me aguardando.


E o que ele falou neste dia?

Tiramos uma foto, eu, ele e Kátia. Ele estava deitado e a foto está no museu até hoje. Foi ele quem pediu para que o fotografássemos. Mas íamos pensar que era uma despedida? Jamais pensaria na morte. Achei que ele estava assim porque estava mais idoso, e o Chico era carinhoso.


Ele chegou a chorar nesses momentos?

Chorou. Às vezes, eu estava saindo e ele dizia, meio choroso: “Você já vai sair? Vai demorar? Não demora não, meu filho. Não demora que eu vou precisar de você”, dizia e pegava na minha mão. Isso passou a ser uma atitude quase que constante nos últimos seis meses antes da partida dele.


Você se lembra do dia mais marcante em que ele chorou?

Um dia que ele pediu para a Kátia me ligar porque estava faltando um xarope. Cheguei depressa em casa e ele disse: “Não era o xarope... Queria só te ver”, disse. Me abraçou muito, chorou. E mesmo assim não passava nada na minha cabeça. Depois que ele passou 13 dias hospitalizado, o doutor Eurípedes Tahan Vieira, que não foi só um médico, mas um amigo sempre presente, tinha dito que o Chico tinha melhorado. Esse médico foi companheiro de todas as horas e cuidava muito do Chico. Viu a pressão dele nessa última semana de vida e estava tudo ótimo. Nada passou pela nossa cabeça, apesar de ele falar que morreria num dia em que o povo brasileiro estivesse muito contente. E realmente aconteceu no dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo.


Você estava em casa?

A Kátia estava perto dele e me chamou. O doutor Eurípedes tinha chegado há pouco. Ele só levantou as mãos para o céu e não deu nem tempo de falarmos alguma coisa. Nem assim eu pensei em morte. Porque não queríamos que isso acontecesse. Tanto que sabemos, nós que cremos, que ele está cada dia mais vivo.


Após a morte do Chico vocês tiveram alguma sensação de que ele estava por perto?

Várias vezes. Um dia sonhei que ele vinha ao meu encontro e estava jogando num jardim muito grande várias mangas para o céu. Vi bem as mangas no ar. Ao mesmo tempo em que ele arremessava, falava para mim: “Veja como eu estou forte! Estou fortalecido!”. Perto dele eu via que havia uma pessoa de branco. Quando ele me abraçou fiquei perplexo, emocionado e naquele instante ou eu não queria acordar ou eu achava que ele realmente estivesse vivo. Aí ele se despediu, foi se afastando junto da pessoa de branco e acenava de longe. Senti que ia cair, mas uma pessoa me segurou e eu acordei em prantos. Isso foi há uns seis meses.


Com Eurípedes e Kátia (de braço estendido). Em seu último aniversário, no dia 2 de abril De que forma ele falou sobre a mensagem que prometeu mandar depois de morto?

Ele falava que após a sua partida iriam surgir várias pessoas tentando escrever algo e que nós não deveríamos acreditar. Um dia combinou um código com o médico Eurípedes Tahan, eu e Kátia. Dessa forma nós teríamos a certeza de que era ele. Ele também avisou, antes de partir, que iria dar um descanso ao lápis, ou seja, não ia mandar nenhuma mensagem tão cedo.


Vocês acham que vai demorar quanto tempo?

Quem somos nós para falar? Queríamos que fosse ontem! Até nos causa constrangimento quando vemos alguma manifestação que não é dele. Já fui ver pessoas que diziam ter mensagens dele. Às vezes, as pessoas acreditam que é verdade, mas sabemos que não. É constrangedor. Isso já aconteceu umas 5 ou 6 vezes.


Esse código é de palavras ou da forma como ele vai dizê-las?

Ele deixou avisado coisas que vai dizer e também como. Somos nós três responsáveis por isso.


Chico chegou a comentar o que ele gostaria que fosse feito depois da morte dele?

Ele pediu que tivesse um velório de 48 horas e vigília de 72 horas, tempo que ele precisava para estar preparado para que o espírito ficasse fora do corpo físico. Tenho certeza de que ele é Allan Kardec reencarnado. Quando a doutrina espírita foi codificada na França e fundada, ela tem em suas obras básicas muitos conhecimentos científicos que uma pessoa sem estudo, sem preparo intelectual, não entenderia. E o Chico veio para cristianizar, para falar para o povo, assim tal qual fez Jesus.


Ele deu pistas de que era a reencarnação do Allan Kardec?

Ele nos deixou claro que sim. Mas o Chico, na humildade que tinha, jamais diria que era a reencarnação do Kardec diretamente. Se ele falasse “eu sou”, ele não seria Chico Xavier. Ele sempre dizia que era um cisco. “De um Francisco só sobrara o cisco”, falava. Ele não diria isso porque iam julgar que ele estava querendo ser o dono da doutrina. E ele nunca quis mandar em nada, pelo contrário. Chico sempre falou por parábolas. Quem entendeu, graças a Deus e a si próprio. Quem não entendeu, só a vida deve ensinar.


Como era o dia-a-dia do Chico?

Chico era uma pessoa que trabalhava de 18 a 20 horas por dia, quando sua saúde ainda era ótima. Ou psicografando, ou respondendo cartas de pessoas que precisavam de uma palavra amiga dele, ou indo às reuniões para se encontrar com o povo, visitando pessoas carentes em Uberaba, em cadeias. Estava sempre ativo. Ele era a própria voz do que hoje se vê falar em Fome Zero. Ele não teve tempo de participar do Fome Zero mas estava sempre tentando fazer com que ninguém ficasse pelo menos um dia sem comer.


Ele era uma pessoa alegre?

Sempre foi muito bem-humorado. Sorria muito, gostava de anedotas, tinha uma vida normal apesar de ter sido uma pessoa ímpar. Contava histórias, como a de um senhor que viu seu anjo da guarda em sonho e este falou: “Olha, o mundo espiritual estudou a sua vida e mandaram dizer a você para escolher entre 10 anos de riqueza e o resto de pobreza ou 10 anos de pobreza e o resto em riqueza”. Ele ia responder, mas o anjo da guarda avisou que ele deveria refletir, que no mesmo horário no dia seguinte ele voltaria. No outro dia, apareceu o anjo e o homem res- pondeu que gostaria de ser rico. De uma hora para outra esse senhor ganhou muito dinheiro. Aí ele foi construindo creches, lares para idosos, fundando hospitais para os necessitados. Até que venceram os 10 anos. O homem então preparou a família dizendo que o anjo espiritual tinha cumprido tudo com ele mas que dali em diante a vida deles deveria mudar, porque ele queria ser leal com o mundo espiritual. No dia exato o anjo apareceu e disse que o mundo espiritual tinha estudado a vida dele e viu que sua vida já não pertencia tanto a ele. Porque o sofrimento dele, dali para frente, faria sofrer milhares de pessoas. E a vida dele teve de continuar tal qual estava.


Ele também contava histórias engraçadas?

Ele contava outra também. Que quando Jesus andava entre os povos, Pedro dizia sempre “Senhor, cura essa senhora que está sofrendo muito”. Jesus curava. Então vinha Pedro com uma criança que estava doente, Jesus curava. Vinha outro, ele dava a bênção. Até que num certo momento Pedro pediu para Jesus ajudar determinada pessoa. Aí ele chegou bem perto no ouvido de Pedro e disse “Pedro... Isso é câncer!”. Chico contava isso com humor, mas para dizer que nem tudo dava para curar, e o câncer é um karma. Se Jesus pudesse curar, ele curaria com o poder que tinha. Mas quis mostrar a Pedro que há casos em que a pessoa tem que continuar com o sofrimento porque é aquilo que vai melhorá-la.


Por que ele nunca se casou?

Porque Chico veio à Terra numa missão muito árdua. Ele era ocupado, um missionário, um apóstolo. Já era casado com os livros e os espíritos, não teria tempo de constituir uma família. Eu mesmo entrei na família muito por acaso. Houve várias mulheres apaixonadas por ele, ele deve ter tido muito trabalho para lidar com isso. Chico era um diplomata! (risos).


Voltando ao passado, quais são as primeiras imagens que você tem dele?

Volto ao passado numa imagem que não é minha, mas como Chico me conhecia sem que eu tivesse conhecimento dele. Minha mãe, Carmen Higino dos Reis, após a morte de meu pai biológico, José dos Reis, saiu de Ituiutaba (MG). Eu estava com quase 5 anos e minha mãe quis morar em Uberaba. Então ela entrou numa fila de mais de 20 pessoas para chegar até o Chico, que tinha recém-mudado para lá também. Ele então, que nunca tinha visto minha mãe, disse “a nossa irmã de Ituiutaba, dona Carmem, faz o favor de se aproximar”. Foi a primeira vez que ela tinha visto o Chico. “Eu vim, a senhora virá. Nós temos uma história muito grande juntos.” No fim dos trabalhos ele pediu para a minha mãe não ir embora sem falar com ele. Aí ele quis mandar um livro para um dos filhos. Ela foi falando o nome do primeiro irmão e ele disse não, do segundo, ele disse que não, aí chegou no meu nome, sou o mais novo. Ele disse: “Esse eu estava procurando há muitos anos porque nós já tivemos muita vida juntos”.


Ele chegou a comentar em que vida vocês estiveram juntos?

Sim. Mas é algo que guardo com muito carinho. São coisas que ficam para o meu coração e minha alma.


Ele quis dizer que vocês já tinham tido uma relação de parentesco?

Sim. Ele me contou.


O que aconteceu depois?

Comecei a trabalhar na editora de livros da comunhão de Uberaba. Eu tinha 8 anos. Aí ele pediu para a minha mãe que me deixasse morar com ele. Ela deixou.


Não estranhou o fato de ir morar com ele?

A lei de afinidade você não estranha. Há pessoas que por mais que tentem te agradar pensando que estão fazendo você feliz não conseguem. E há pessoas que já no primeiro impacto te fazem sentir que já as conhecia há muitos anos. Isso acontece com todos nós, mas poucos percebem.


Não sentiu falta da sua mãe?

Minha mãe trabalhava com ele também, estava sempre junto de nós, embora não morasse conosco.


De que forma ele o agradava, como filho, quando você era criança?

Antes de ter labirintite e perder a facilidade para andar ele fazia uma coisa que eu adorava. Esquentava leite, passava manteiga no pão e levava todos os dias antes de eu dormir. Coisa que algumas mães não fazem. Não foi um ano, nem vinte anos. Foi uma vida.


Nos últimos meses antes de sua morte, Chico ficou com a saúde debilitada e precisou ser internado algumas vezes. Isso o incomodou?

Ele preferia fazer os tratamentos de saúde em casa porque era muito apegado a nós e à sua missão. Mas a última pneumonia foi muito forte e tivemos de interná-lo.


A idéia de fazer um museu partiu dele?

Sim, ele veio me dizer que seria ótimo fazer um museu após a partida dele. Inclusive, eu sempre dizia que era eu que ia primeiro. Na verdade queria que isso acontecesse. Mas ele disse que não. Que eu é que ia agüentar a barra da partida. E eu disse que ia tentar fazer tudo que ele desejava.


O que você tem feito hoje?

Nós continuamos o jantar, ampliamos a cozinha, fizemos um consultório dentário que funcionará em breve, as reuniões de sábado. Mas aquela mesa e aquela cadeira... Na minha casa nunca mais tive coragem de tomar refeição. A presença dele é tão grande que nunca mais comi lá.


Na convivência de vocês houve algum momento de desentendimento?

Não, graças a Deus não. O Chico não era um pai comum, era ímpar.


Você chegou a ser acusado de ter agredido seu próprio pai. Como reagiu a isso?

Jesus foi traído e caluniado várias vezes. Se aconteceu isso com Jesus, imagine com o Chico, que também era sagrado, do bem. Sempre fui o pára-choque do Chico. Todas as coisas que não podiam chegar até o Chico, o pára-choque tinha que segurar. Ou num relacionamento, ou pessoas que queriam comandar a vida dele, ou que ele atendesse a hora que quisessem. Aí surge o pára-choque, serve para isso. A minha consciência tranqüila me deixou em paz. Mesmo assim sofri muito, me preocupei, principal- mente por se tratar de Chico Xavier. E os processos em que eu estava sendo acusado foram todos suspensos a pedido da própria promotoria de Justiça.


Você tem mágoa da sua ex-mulher?

Não é um problema de mágoa, foi um problema de Justiça. Ela me acusou de maltratar o Chico e ainda de desviar dinheiro. Mas a promotoria entendeu que os direitos autorais de 1997 para cá não eram para a minha pessoa física, mas para a Fundação, a qual eu presidia e presido. Os direitos autorais dos livros antes de 1997 eram e ainda são dos editores, nós nunca fiscalizamos. Não há como controlarmos, e eu inclusive me encontro numa posição delicada para controlar isso, já que fui acusado de ter esses direitos. Na verdade, em toda a vida de Chico, nem eu nem ele tivemos acesso ao que foi feito do dinheiro dos 412 títulos vendidos.


Teve medo de não conseguir provar sua inocência?

Não. Vasculharam a minha vida, quebraram meu sigilo bancário e não comprovaram que eu desviava dinheiro. Foi desagradável, fiquei muito mal, mas já sabia que não iam encontrar nada.


Algo relacionado ao Chico o entristece?

O Chico dizia que o espiritismo deveria ser do povo, nunca deveria ter um chefe. Ele previa que alguém gostaria de mudar isso no Brasil. E antes do ex-presidente Fernando Henrique deixar o cargo, assinou um decreto para transformar o espiritismo em associação. Eu e os companheiros de Chico vamos conversar com políticos para que isso não seja aprovado de forma alguma.


Como a Fundação sobrevive?

Temos grupo de pessoas que nos ajudam. Pessoas que doam. Mas ainda é pouco. Nós fazemos trabalhos assistenciais, mas tem sido difícil. Temos pessoas que ajudam, que fazem distribuição. São nossos amigos de São Paulo e Rio Grande do Sul. Nessa semana mesmo foram distribuir cobertores em Uberaba. A gente faz o que pode.


Elas continuam visitando a casa dele?

Sim, mas o contrário também acontece. Entre os editores, o único que lembrou de ir lá dar um apoio e fez o mausoléu, o túmulo, foi o Oswaldo Godoy da Editora Ideal. Isso porque eram onze editores. E olha que achavam que era eu que recebia o dinheiro dos direitos autorais! Isso não me revolta, são os editores que terão de prestar conta com as consciências. Eu estarei em paz com a minha.


O museu de Chico Xavier

Desde que Chico Xavier ergueu as mãos em direção ao céu e partiu, a casa de dois quartos onde morou na rua Dom Pedro I, em Uberaba, transformou-se numa espécie de museu. Aberta para visitação, está exatamente como Chico a deixou. Os objetos, a coleção de bonés, perucas, inclusive três dentaduras do médium, permanecem intocados. O que impressiona é um aviso aos espíritos, colado por Chico na porta de seu quarto: “Se algum ami- go espiritual porventura estiver determinado a me proporcionar a alegria de uma visita, aviso que estarei nesta noite – somente hoje, no quarto à esquerda, onde estarei com a satisfação de receber...”.


Capítulo I - A infância sofrida Órfão de mãe com cinco anos, o médium morou durante três anos com uma madrinha que o maltratava. Ainda criança, surgiram as primeiras manifestações de mediunidade

Com 12 anos ele escreveu uma redação dizendo ser “obra do invisível” e foi repreendido pela professora. Ele tinha quatro anos quando deixou os pais boquiabertos. Em Pedro Leopoldo, pequena cidade do interior de Minas Gerais, Francisco Cândido Xavier deu o primeiro sinal de mediunidade ao interferir numa conversa sobre o aborto de uma vizinha. Citou com naturalidade palavras médicas como “nidação” e “ectópica”. A primeira significa renovação da mucosa uterina entre os períodos menstruais. A segunda, fora da posição normal. Pelas modestas condições da família, o vendedor de bilhetes de loteria João Cândido Xavier e a lavadeira Maria João de Deus estranharam o linguajar do filho. Nascido em 2 de abril de 1910 naquela cidade, Chico pontuou, pela primeira vez, que seria uma pessoa extraordinária.

Um ano depois desse episódio veio a primeira provação.

Com cinco anos, Chico perdeu a mãe, vítima de problemas cardíacos. Maria João era o eixo da família. Religiosa, ensinou os nove filhos a rezar, mas não acompanhou a entrega do filho Francisco ao espiritismo. Mesmo ausente, tornou-se seu anjo protetor na infância. O espírito de Maria era, para Chico, quem o salvava e, de certa forma, o educava. “As pessoas achavam que ele era doido. Isso aconteceu durante muito tempo”, conta Kátia Maria, amiga de muitos anos de Chico Xavier.

Assim que a mãe morreu, Chico foi obrigado a morar com sua madrinha, Rita de Cássia. Contam os amigos, Rita foi sua segunda provação. “Muito severa, muito desequilibrada emocionalmente, uma perturbada”, lembra, sem desvios, Eurípedes Tahan Vieira, médico de Chico e amigo da época de juventude. Tahan franze a testa quando comenta as maldades de Rita de Cássia: “Ela enfiava um garfo na barriga de Chico, deixava o garfo espetado lá. Fazia o Chico lamber feridas sujas”, prossegue. O sofrimento causado por Rita ficou marcado na vida do médium. Os relatos sempre impressionaram. “Chico saía com a barriga sangrando pela casa, chorando”, conta Kátia.

O pesadelo durou dos 5 aos 8 anos de idade. Cada vez que Chico era maltratado, ia até o jardim procurar sua mãe querida. Em sua visão, a imagem dela lhe aparecia atrás de uma árvore e lhe dava conselhos para que agüentasse firme. Voltava tranqüilo para dentro da casa e dizia que estava feliz por conversar com sua mãezinha. Rita de Cássia, irritada e assustada, o chamava de “menino aluado” e o maltratava mais. Deixava-o sem comer durante dias. “Mãe, bem que eu queria comer alguma coisa”, suplicava o menino no quintal. E Rita de Cássia levava-o para ter com o padre, que o obrigava a rezar mais de mil ave-marias.

Traumatizado, Chico só encontrou sossego ao ser acolhido novamente pelo seu pai, a pedido da segunda esposa Cidália Batista, a mulher que passou a ser a segunda mãe do menino e quis criar todos os irmãos juntos. “E Chico, quando se viu à frente dessa criatura, quando sentiu no pescoço a carícia de seus braços carinhosos, não se conteve, beijou-lhe sentida e gratamente a barra da saia e votou-lhe, daí por diante, intensa e sincera amizade de verdadeiro filho”, contou o autor Ramiro Gama, no livro Lindos Casos de Chico Xavier. Neste mesmo livro, o autor conta que o espírito da mãe de Chico já havia avisado: “Pedi a Jesus para enviar um anjo bom que tome conta de vocês todos”. Cidália seria o anjo bom. Sem Cidália talvez a vida de Chico não fluísse tanto nos anos seguintes: orava, aprendeu a cozinhar e começou a trabalhar. Ainda via espíritos “entrando pela janela”, como conta o médico Eurípedes Tahan, mas era feliz. Entrou na escola com o dinheiro de seu trabalho, que era vender alfaces da horta da casa e depois como tecelão numa fábrica da cidade. Com harmonia em casa, aos 10 anos, Chico parou de ver o espírito da mãe.

Na escola, porém, os infortúnios continuavam. Era chamado de “esquisito” pelos colegas por sentir mãos invisíveis interferirem na sua escrita. Com 12 anos escrevera uma redação dizendo ser “obra do invisível” e foi repreendido pela professora. Parou de freqüentar a escola um ano depois, após apenas quatro anos de estudo. As visões continuavam: saía andando durante a noite falando sobre o sofrimento dos mortos.

Enfim, aos 17 anos, deu o passo certeiro, rumo à sua missão: Maria da Conceição, uma de suas irmãs, ficou doente e um casal de amigos que seguia a doutrina de Allan Kardec realizou a primeira sessão espírita na casa. Na mesa, colocaram os livros O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos, de Kardec. A mulher do casal, Carmem Perácio, recebeu o espírito da mãe de Chico, que trouxe uma mensagem decisiva para o destino de seu filho.

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Não perca! Na próxima edição, o segundo capítulo da biografia: as primeiras psicografias e a mensagem da mãe, que mudou o destino de Chico Xavier

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