A CURA ATRAVÉS DA FÉ

Folha de Pernambuco - 17/09/2006
Tiago Barbosa
O surgimento das enfermidades e o tratamento destinado a curá-las nem sempre são fenômenos exclusivos da Medicina. O mal físico ou mental que abala o ser humano pode ser fruto de um desarranjo que transcende o corpo e o seu contato com o mundo. Há casos em que se aponta a força de uma entidade externa capaz de desequilibrar a saúde do indivíduo e causar-lhe males que só poderão combatidos se levarem em conta o modo como surgiram. Quando eles forem indicados como de origem espiritual, a solução envereda por um caminho próprio. Nesta terceira e última reporgem da série sobre a medicina popular, a Folha debate a origem e eficácia das “curas espirituais”.

Uma dor de cabeça permanente, um mal-estar que não acaba ou uma doença mais grave, como o aparecimento de um câncer, podem não encontrar razão de existir nos preceitos tradicionais da Medicina. Para o Espiritismo, indícios que sugerem problemas de saúde nem sempre se resumem às causas materiais. Podem, na verdade, revelar que uma pessoa está fraca e aberta à influência de espíritos inferiores ou que ela possui doenças espirituais que levam a uma “falha” na passagem de energia entre os elementos que a integram.

O Espiritismo parte do conceito de que o indivíduo se divide em espírito, perispírito e corpo. O primeiro é a mente, que tudo comanda. O segundo faz uma espécie de ligação entre o pensamento e o corpo, que é a parte física. Segundo o diretor do Núcleo Espírita Investigadores da Luz (Neil), orador espírita e estudante de Medicina da Universidade de Pernambuco, Leonardo Machado, um dos fatores que pode desencadear em uma doença é justamente uma mazela no perispírito que leva a uma falha no processo de transmissão da energia. O distúrbio pode ocorrer tanto por um resquício de imperfeição de vidas passadas ou por influência de espíritos que se aproveitam de uma fraqueza do indivíduo.

“O problema é que nem sempre as pessoas conseguem perceber esse assédio negativo e deixam, sem intenção, uma porta aberta para a aproximação dessas entidades”, explica Leonardo Machado. Segundo ele, esse contexto pode oferecer uma abertura para que algumas doenças surjam e se instalem, inclusive aquelas - genericamente chamadas de auto-imunes - nas quais o corpo fabrica anticorpos contra as próprias células, numa tentativa de se destruir.

Foi o que a dona de casa Patrícia Maria dos Santos acredita ter ocorrido em sua vida. Os médicos constataram que ela sofria de leucemia (câncer no sangue) e necessitava de um transplante de medula. Patrícia realizou o processo, mas isso não foi suficiente para salvá-la. Mesmo com a medicação, havia uma rejeição ao sangue recebido e ela corria risco de morte. Em uma consulta espiritual, ela diz ter descoberto a origem do problema. “O espírito estava atrapalhando minha recuperação. Minhas taxas voltaram a subir e levo uma vida normal”, diz Patrícia.

“Um médium percebeu, no campo magnético dela, um espírito fazendo uma carga negativa sobre sua corrente sanguínea”, conta o vice-diretor do Hospital Espiritual Maria Clara Martins, Vandir Barbosa. Ele observa que, em uma vida passada, a jovem pode ter tido envolvimento com entidades maléficas. “É uma carga que independe da alimentação, do modo de vida. A pessoa começa a ter insônias, a imunidade baixa e ela abre as portas para uma doença”, diz ele. A cura de Patrícia aconteceu depois que o espírito que a atordoava foi convocado e “aconselhado” a mudar sua conduta.

17/09/2006 Espiritismo tem filosofia própria

Espíritas definem o Espiritismo como algo que supera o conceito de religião porque engloba ensinamentos cristãos - colocando a figura de Jesus Cristo como o guia-modelo -, uma filosofia própria e uma afinidade com a ciência, a partir do momento em que busca as razões para o que acomete o ser humano. Por isso, o processo da cura no Espiritismo não se propõe a ser milagroso e atua no combate aos elementos que geram a enfermidade.

A assistência ao doente começa no centro, onde ele recebe o atendimento fraterno em que conta seus problemas e ganha um encaminhamento específico para o que lhe incomoda. O tratamento envolve a recomendação de leituras, orações e o início do que os espíritas chamam de “reforma íntima”, um processo pelo qual o doente começa a alterar seu pensamento diante do problema.

A reforma íntima, entretanto, não é a única forma de tratar as enfermidades, na perspectiva espírita. O passe, definido com uma transferência de bioenergia da pessoa habilitada a dá-lo e o paciente, é mais um caminho na resolução de alguns males. A pessoa que é encaminhada a esse tipo de tratamento mantém “as portas abertas” aos bons fluidos que serão passados pelo médium e as pessoas com as quais ele estará espiritualmente ligado. Considera-se que, no passe, a energia é renovada sem precisar que o médium exerça qualquer tipo de toque no paciente.

17/09/2006 Consultas determinam tratamento

A psicóloga Cristina Fernandes Santos se considera uma prova viva do quanto os ensinamentos da filosofia são, de fato, eficazes. Há vinte anos, ela fez um exame médico e constatou a presença de um cisto no ovário esquerdo. O especialista a aconselhou a extraí-lo através de uma cirurgia. Cristina seguiu a orientação. Depois, ela tentou engravidar, mas suas intenções foram frustradas pela perda prematura dos fetos.

Como se não bastasse a dor, a psicóloga verificou a existência de outro cisto de 13 cm no ovário direito. Cristina decidiu investigar o problema a partir de outra perspectiva. Fez uma consulta espiritual e se submeteu a quatro intervenções. No dia seguinte em que completou o procedimento, o problema sumiu. “Engravidei e, hoje, tenho um filho com 16 anos”, se alegra. A psicóloga explica que o processo que encarou é considerado, no Espiritismo, a última instância a ser utilizada para o processo da cura. “Na intervenção, enquanto o paciente fica em casa, deitado, os médiuns se reúnem e liberam uma substância chamada hectoplasma”, diz Cristina. A substância passa a ser mandada pelo nariz, boca e espírito para onde o doente está. Lá, ela se materializa para conseguir intervir no problema. O procedimento pode durar duas horas. O encaminhamento para os tratamentos depende do resultado da consulta que o indivíduo solicita em um centro.

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