CASARÕES-FANTASMA NO RECIFE

Jornal do Commercio em 04/06/06
ROSTAND PARAÍSO


Certa vez, na Fundação Joaquim Nabuco, falando sobre crendices e assombrações, dizia eu que, sendo uma cidade antiga, não poderiam faltar ao Recife os seus fantasmas. Escravos que ficavam, depois de mortos, perambulando nas adjacências da casa-grande, assustando seus moradores. Comerciantes que viviam a rondar os lugares onde haviam deixado, enterradas, botijas cheias de moedas de ouro e prata, e que, em sonhos, apareciam às pessoas que ali moravam. Pescadores que, à noite, viam surgir à sua frente, em alguns trechos do Capibaribe, vultos esfumaçados de pessoas que haviam se afogado. Casas onde, noites adentro, lâmpadas se acendiam e andavam sozinhas pelos corredores, objetos eram lançados de encontro às paredes e se ouviam, vez por outra, vozes, gemidos e choros. Falei dos nossos papa-figos que, com um saco nas costas, e com o uso de bombons, procuravam atrair os garotos para lhes comer o fígado. Do Macobêba que, encapuzado e com roupas pretas, ficava a perseguir as mulheres que se aventuravam, à noite, pelas ladeiras de Olinda. Da perna-cabeluda que, durante anos, tanto assustou as crianças das praias de Jaboatão.

Não é sobre essas crendices e assombrações que quero, agora, falar. Nem sobre os casarões que, no seu interior, supostamente abrigam almas do outro mundo. É sobre os casarões com que nos defrontamos – a cada dia em número maior – nas ruas do Recife e que dão, a quem passa, a idéia de completo abandono, de criminosa ruína e de desmoronamento iminente. Nesse aspecto, o Recife é rico. A cada dia mais rico.

Entre os muitos casarões-fantasma do Recife, o primeiro que me vem à mente é o do Pátio de Santa Cruz, esquina da Gervásio Pires com a Barão de São Borja. Nos meus tempos de rapaz, ali funcionou um educandário oficial, o Grupo Escolar Manoel Borba. Defronte ao Posto de Saúde Gouveia de Barros. Diferentemente do Posto, que ainda lá se encontra, o grupo escolar foi transferido para outras áreas, ficando aquele edifício desocupado durante anos. Desde a gestão de José do Rego Maciel, como prefeito do Recife, ali funcionava a Associação dos Ex-Combatentes do Estado de Pernambuco. O velho prédio está, hoje, no mais completo e deplorável abandono. Ao visitá-lo, há 4 anos, assim me expressei, em artigos escritos para este JC:
“O prédio, em ruínas, afugenta os que ali pensam entrar. Faz medo até aos que passam pela rua, não vá ele desabar naquele exato momento. Nas suas paredes descascadas, pintura desbotada, em palavras já ilegíveis, os nomes dos pernambucanos mortos em campanha. Ao lado, o roteiro da FEB na campanha da Itália, com suas mais expressivas vitórias, e a lista completa dos 36 navios brasileiros torpedeados, com data e hora de Berlim, e o nome dos comandantes dos submarinos torpedeadores.

Noutros painéis, os feitos da Marinha e da Força Aérea Brasileira, registro de uma gloriosa campanha que tanto nos dignifica. Subo, temeroso, a escadaria em ruínas. Vou ao primeiro andar, onde funciona, quase ao ar livre – tal o estado do telhado e de suas janelas, quebradas, sem vidraças, permanentemente abertas, sem nada proteger do vento e da chuva – a Associação Brasileira dos Integrantes do Batalhão Suez em Pernambuco, parte da Força Internacional da Paz da ONU, outro importante episódio da nossa história, que merece, também, ser relembrado e exaltado para as gerações atuais e futuras. Vejo, com tristeza, o esquecimento e a omissão de nossas autoridades na preservação desse passado, numa evidente demonstração de que a memória do brasileiro é curta. Noutros países, o prédio, devidamente restaurado, seria motivo de visitação pública por parte daqueles, estudantes e professores, a quem cabe conhecer e preservar nossa memória.”

Passados quase quatro anos, vejo que de nada adiantaram aqueles artigos, bem como os escritos, com o mesmo objetivo, por várias outras pessoas. O prédio, visivelmente mais deteriorado, ameaçando ruir a qualquer momento, não mereceu nenhuma atenção das autoridades municipais. Parece-me, até, que elas só fizeram atrapalhar algumas tentativas de particulares no sentido de restaurá-lo. Lembro-me das palavras com que terminei aquele artigo e que continuam bem atuais:
“Pobre do povo que não cultua os seus heróis e não cuida dos seus monumentos. Pobre do povo que esquece o seu passado. Um povo sem memória é um povo fadado a um outro tipo de escravidão, a escravidão da cultura. Um povo sem passado, alguém já disse, é um povo sem futuro.”

Rostand Paraíso, médico-cardiologista, é da APL.


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