FENÔMENO DO ALÉM

Jornal Folha de Pernambuco em 02/10/05
Desconhecida para uns, muito conhecida por outros, a psicografia é bastante procurada por pessoas que perderam parentes e buscam entender o motivo da morte ou ainda tentam encontrar resposta para algum problema que estejam enfrentando. No Brasil, o maior nome nesse campo foi o espírita mineiro Chico Xavier. As cartas psicografadas por ele, devido a sua tamanha confiabilidade, já serviram até como provas judiciais que inocentaram dois homens acusados de homicídios. Hoje, cada vez mais, os relatos das cartas psicografadas impressionam até mesmo os mais céticos.
Késia Souza

O Espiritismo tem sido bastante discutido nos últimos tempos, principalmente por causa do crescimento do número de adeptos. Nessa religião, porém, há uma faculdade mental que desperta bastante interesse, dúvida, crença e incredulidade: a psicografia, que é definida pela maioria das pessoas como um fenômeno através do qual os espíritos emitem seus pensamentos por meio da escrita. Para Allan Kardec, responsável por difundir a religião espírita, a escrita manual era considerada por ele a mais simples, cômoda e eficaz forma de comunicação.

Existe uma classificação para os médiuns psicógrafos, de acordo com o tipo de transcrição por ele realizada. Há os mecânicos ou chamados também de inconscientes, que escrevem sem ter a consciência do que estão grafando; os semimecânicos ou semiconscientes, que têm domínio sobre o que escrevem, e grafam de acordo com a ordem espiritual recebida; o terceiro grupo é denominado de intuitivos ou inspirados e, segundo a doutrina, recebe a influência espiritual apenas no cérebro. “Os intuitivos são os menos confiáveis porque não é possível distinguir os pensamentos dos espíritos dos da pessoa que está psicografando. Já os mecânicos são os mais raros de serem observados. Um dos maiores, senão o maior exemplo de médium mecânico, era Chico Xavier”, coloca o diretor do Centro Espírita Casa dos Humildes, Marco Aurélio Saldanha.

No entanto, antes de ser considerado um médium realmente, Saldanha explica que a pessoa, assim que começa a sentir sinais indicativos de uma possível mediunidade, passa por uma série de avaliações até que haja a constatação. “Na verdade, fazemos uns testes para verificar se ela tem realmente o dom. Depois da constatação, ocorre um período de adaptação, que varia de pessoa para pessoa”, destaca.

O médium Carlos Pereira, que psicografa cartas há aproximadamente dez anos, conta que reserva todos os dias um horário especial para que os espíritos possam entrar em contato com ele. “Todos os dias, por volta das 5h da manhã, me coloco em um lugar tranqüilo, onde possa me concentrar para poder psicografar. A escolha desse horário é porque o considero mais apropriado porque as pessoas estão dormindo, sinto-me mais sossegado”, comenta Pereira.

Ainda segundo o médium, é preciso salientar que o processo mediúnico varia de pessoa para pessoa. “Cada médium tem formas diferenciadas. Mas, de maneira geral, ele capta a presença do espírito visualmente e, quando percebe a presença, começa a comunicação”, relata.

Uma Não há provas científicas Pesquisadores afirmam que ainda não há uma comprovação científica com relação à veracidade da psicografia. Uma das alegações diz respeito ao fato de que, em alguns casos, por exemplo, as pessoas que buscam não procuram comprovar realmente se a letra é idêntica a do parente ou amigo que faleceu.

O professor de Psicologia da Religião da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Luiz Alencar Libório, argumenta que a falta de confronto da letra acontece na maioria dos casos. “É muito a questão do domínio da opinião do ponto de vista de quem tá participando. Caso houvesse uma explicação com bastante embasamento, até que seria possível acreditar que ela tem um sexto sentido, um dom telepático bastante aguçado. Só que isso não se pode provar cientificamente”, afirma Libório.

Outra avaliação feita pelo professor é que o recurso mídico acaba tornando a pessoa, o interessado, mais crédulo. “Isso acaba fazendo com que ela esteja mais receptiva a aceitar. Esse tipo de fato fica muito mais na crença do que na comprovação científica. Mas é importante frisar que, até agora, não há esse tipo de prova”, complementa.

“Se um parente diz que acredita que a letra seja de fato de quem morreu é uma coisa porque ele simplesmente pode estar sendo levado a crer nisso por conta de uma projeção. Mas, a comprovação feita por um instituto de grafologia, isento, é outra, completamente diferente”, explica o professor.das dúvidas mais constantes sobre a psicografia está relacionada à questão de se uma pessoa pode procurar um médium ou se tem que ser uma iniciativa por parte do espírito, por exemplo. “Pode ser uma coisa ou outra. A pessoa pode fazer uma solicitação e, se o espírito que desencarnou e quem pediu tiver merecimento, a mensagem será dada”, pontua Pereira. Já o diretor da Casa dos Humildes diz que tem que ser uma decisão do próprio espírito. “O telefone só toca de lá para cá”.


Médium psicografou mais de 15 mil cartas

Há 35 anos o médium Celso de Almeida Miranda começou a psicografar alguns textos de espíritos. No início foi complicado ele aceitar que poderia ter esse “dom” mas, com o passar dos anos, e, principalmente, depois dos conselhos do amigo Chico Xavier, Celso diz que entendeu que essa era sua missão e a aceitou. Hoje, aos 67 anos, ele já psicografou mais de 15 mil cartas, dentre as quais estão as de várias personalidades.

Celso revela que a resistência em aceitar a faculdade mediúnica aconteceu porque ele não acreditava muito que isso seria possível, e por tantos outros medos dentre os quais a vaidade e a rejeição da família. Mesmo com o Espiritismo, o médium continua trabalhando como ourives, em Uberaba, Minas Gerais. “Eu não vivo do Espiritismo, tanto que até hoje trabalho como ourives para me sustentar”, comenta.

“Quando psicografo cartas deixo de pensar. Cedo a minha mente para que alguém (espiríto) possa tomar conta dela e expressar a sua vontade. É um processo que acontece através de uma ligação mente a mente”, coloca.

As críticas e descrenças são recebidas com serenidade por Celso. “Vejo naturalmente a posição dessas pessoas. Isso não as desmerece em nada. É um direito de todos”, avalia o médium, que já publicou mais de 30 livros e possui mais três para serem editados. Atualmente, ele atende às segundas e sextas-feiras, no Centro Espírita Aurélio Augustinho, em Uberaba.


Documentos inocentaram acusados

Cartas do médium mineiro Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, que morreu em 2002, foram utilizadas como provas judiciais e inocentaram da acusação de assassinatos dois homens. José Divino foi a júri popular, em Goiás, e João de Deus, em Mato Grosso do Sul. Ambos foram absolvidos depois da apresentação das cartas em que os espíritos afirmavam que tinham sido vítimas acidentais dos dois. Um dos fatores que pesou a favor dos acusados foi o fato das cartas terem sido escritas por Chico Xavier. Após as manifestações psicografadas das vítimas dessas histórias, os familiares começaram a seguir a doutrina espírita e desenvolver trabalhos semelhantes aos realizados pelo médium mineiro. Uma das maiores curiosidades envolvendo esse caso é que um dos inocentados, João de Deus, também marido de uma das vítimas, conseguiu psicografar uma carta de sua mulher e, hoje em dia, psicografa cartas de outras pessoas que já morreram.

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