ESPIRITISMO: CADA VEZ MAIS ADEPTOS

Jornal Folha de Pernambuco em 26/06/05
O espiritismo tem se tornado a religião que mais adeptos tem conseguido agregar nos últimos anos no Brasil...
Késia Souza

O espiritismo tem se tornado a religião que mais adeptos tem conseguido agregar nos últimos anos no Brasil. Essa ascensão da religião é facilmente constatada através dos números. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que já são mais de 40 milhões de espíritas em todo País. Alguns estudiosos, inclusive, arriscam que a doutrina de Alan Kardec está se aproximando cada vez mais do número de católicos.

No entanto, segundo os dados do IBGE, 72% dos brasileiros são declarados católicos, enquanto 15% são evangélicos e 5% espíritas. O acréscimo no número de praticantes da doutrina está mais visível de acordo com alguns praticantes porque antigamente as pessoas não reconheciam perante as pesquisas nacionais que eram adeptas da religião. O que acontecia é que os espíritas, na maioria as vezes, se diziam católicos. Nessa época, havia de acordo com a antropologia, o chamado duplo pertencimento religioso: muitas pessoas eram católicas e espíritas.

Hoje, o número de jovens que começam a freqüentar os centros também está sendo um diferencial. Há três anos, o estudante universitário Daniel Gadêlha, 19 anos, começou a freqüentar a Associação Espírita Casa dos Humildes, localizada no bairro de Casa Forte. Ele procurou o centro por causa de problemas de saúde, mas hoje o jovem diz que um dos fatores que o fizeram continuar na religião é o esclarecimento que ela lhe proporcionou acerca dos questionamentos da vida. “Eles explicam tudo. Todas as perguntas têm respaldo. Há religiões que temos que aceitar o que é dito sem entender o porquê das coisas. No espiritismo isso não acontece”, argumenta Gadêlha. Depois que ele tornou-se espírita, os familiares do estudante também decidiram ser seguidores da doutrina.

O diretor da Casa dos Humildes, Marco Aurélio de Saldanha, disse que é notável esse aumento no número de pessoas adeptas à religião. “Esse crescimento é perceptível a cada ano que passa. As pessoas que nos procuram, em sua maioria, estão passando por algum problema. Eles buscam a solução dessa questão e, depois de resolverem o problema, continuam frenqüentando o centro por conta das respostas que obtêm para suas dúvidas”, afirma Saldanha.

Os seguidores do espiritismo são também seguidores de Alan Kardec, nome adotado pelo francês Hippolyte Léon Dinizard Rivail, depois de codificar o espiritismo, em 1857. Entre os principais norteadores do kardecismo está a reencarnação (os espíritas acreditam que a alma retorna quantas vezes for necessário para, por meio de boas ações, conseguir atingir a evolução, um estágio superior.

Uma das explicações apontadas por estudiosos da crença para esse crescimento é que o espiritismo é uma religião fundamentada cada vez mais na ciência. Os estudos científicos são um grande aliado da religião. “Considero que a ciência tem colaborado bastante para ascensão do espiritismo. A reencarnação tem sido muito estudada. Ela está bem próxima de ser provada cientificamente, também, através da regressão. Esses estudos estão mais avançados nos Estados Unidos”, pontuou a estudiosa do espiritismo há mais de 30 anos Jeane Siqueira.

Crescimento envolve classe econômica

A antropologia considera que o crescimento do espiritismo não pode ser analisado apenas por um prisma. Os motivos que levam a esse aumento no número de adeptos são vários, envolvendo até classe econômica. De acordo com o antropólogo e professor do programa de pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), frei Tito Figueirôa, a doutrina kardecista atinge principalmente a classe média. Ele também afirma que o espiritismo é uma religião que se auto proclama cristã.

“O espiritismo é uma religião muito baseada em livros. Por isso, é mais difícil conseguir atingir a classe popular. Além disso, a religião tira muito o sentimento de culpa por conta da doutrina da reencarnação. Ela retira a culpa de seus indivíduos e atribui à falta de evolução do espírito”, coloca o antropólogo, acrescentando que essa é uma forma de pensar que conforta muito as pessoas.

Outra explicação do professor para que a doutrina tenha conseguido agregar cada vez mais membros é o fato de que os espíritas possuem uma aceitação bem maior do indivíduo como ele é. “A Igreja Católica, por exemplo, não tem o nível de aceitação dos homossexuais que os espíritas têm, por exemplo”, declarou. O fato do catolicismo não aceitar o segundo casamento também é um dos motivos apontados pelo professor para que haja esse crescimento.

A evolução da sociedade brasileira é apontada como um dos incentivadores dessa mudança de postura da sociedade que passou a assumir a sua real escolha religiosa. O fato de a sociedade ser muito mais plural, acaba garantindo uma forma de liberdade aos indivíduos. “Isso tira um pouco da estigmatização da religião. Por isso, os espíritas são bem mais visíveis hoje em dia”, destaca Figueirôa.

O antropólogo reconhece que pelo fato de a Igreja Católica não ter uma percepção como um todo e não possuir um cuidado pastoral como os espíritas acaba propiciando também o desligamento das pessoas do catolicismo.

Diferença principal é depois da morte

As principais diferenças entre o espiritismo e o cristianismo estão relacionadas à questão das visões religiosas do que ocorre após a morte. Dentre essas posições, estão quatro pontos básicos: vida após a morte; destino da alma; reencarnação e comunicação entre os mortos. Algumas posições do espiritismo, como a questão da reencarnação,se assemelham com outras religiões como o budismo, que acreditam que a alma da pessoa sempre irá retornar até alcançar o nirvana.

Para o espiritismo, a alma passa por sucessivas encarnações até atingir a perfeição, enquanto no cristianismo, tanto para católicos, como protestantes, a alma fica no céu até o juízo final. A outra distinção com relação ao destino da alma ocorre porque os kardecistas acreditam que ela vaga até voltar em um novo corpo. Já os cristão crêem que o inferno é para sempre, no entanto, depois do juízo final, as almas do céu e do purgatório irão ressuscitar.

Já com relação à reencarnação, os espíritas acreditam que a alma da pessoa retorna quantas vezes for necessária, até conseguir atingir um estágio superior. Os cristãos, por sua vez, só acreditam na ressurreição do corpo físico quando Cristo retornar.

Um dos assuntos mais polêmicos entre os dois envolve a comunicação entre os mortos. Para o espiritismo, qualquer pessoa pode contactar os espíritos, no entanto, alguns podem desenvolver melhor esse dom. Os cristãos não acreditam que esse tipo de comunicação possa ocorrer.

Centros ligados à Federação

Diferentemente da Igreja Católica, que tem o Vaticano como centralizador de todas igrejas e de todas as normas regentes da religião, o espiritismo não possui uma entidade mundial que discipline todos os centros existentes no mundo. O que acontece, no Brasil, por exemplo, é que a maioria dos centros são filiados a uma federação, nesse caso, a Federação Espírita Brasileira (FEB), órgão fundado em 1884, que tem como principal objetivo o estudo, a prática e a divulgação da doutrina espírita.

A federação por sua vez, possui órgãos em todos os estados brasileiros às quais os centros espíritas existentes nesses estados são filiados. Em Pernambuco, a federação tem sua sede no bairro do Espinheiro. No entanto, no Estado essa não é única organização que agrega centros, apesar de ser a maior com mais de 250 filiados. A outra entidade é a Comissão Estadual do Espiritismo que concentra aproximadamente uns 150 a 200 centros. De acordo com a Federação Espírita de Pernambuco, cerca de 80% dos centros estão localizados na Região Metropolitana do Recife (RMR), enquanto os outros 20% situam-se no Interior.

Apesar de ser a entidade principal da religião nos estados, os integrantes da federação fazem questão de afirmar que não possuem gerência sobre esses centros. “A federação apenas dá um respaldo institucional. Auxilia os centros na questão da doutrina para que haja um política doutrinária. Mas não interfere de nenhum modo nos centros”, afirma o conselheiro da Federação Espírita, Joel Carneiro.

A Federação funciona todos os dias. O expediente durante o dia é destinado a resolver questões mais burocráticas, organizacionais. À noite, como ocorre em todos os centros, acontecem os encontros para o estudo, aprendizagem e “tratamento” (passe - uma espécie de energização - e trabalhos de desobsessão - afastamento de espíritos que estão interferindo negativamente na vida das pessoas). Um fato bastante comum aos centros é que a maioria deles possui abrigos e livrarias, uma forma de estimular os praticantes.

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