NA COMPANHIA DO MEDO
Carlos Pereira

Psiquiatra criminal entrevista paciente que narra as suas experiências com o “diabo” que vem costumeiramente estrupá-la no manicômio. Descrente sobre estas revelações, a Dra. Miranda Grey (Halle Berry) vê, de uma hora para outra, a sua vida se transformar completamente. Certa noite, de volta para sua casa, depara-se com uma garota na estrada. Ao desviar-se dela, seu carro se choca com uma árvore. Ilesa ao acidente, sai do carro para falar com a jovem, de repente, sente-se como que pegando fogo e perde a consciência. Quando acorda, três dias depois, surpreende-se presa no mesmo manicômio que clinicava. O que ocorreu? Por que estava naquela situação?

Seu colega de manicômio, o Dr.Pete Grahan (Robert Downey Jr) tenta recordá-la dos fatos. Nada consegue lembrar. Ao saber que ela havia assassinado o marido, o Dr. Doug Grey (Charles S. Dutton) tem uma crise e é sedada.

A partir daí, a Dra. Miranda passa ater experiências paranormais sem conseguir compreender tudo que se acontece com ela. Ouve vozes, percebe a presenças espirituais em sua cela. Uma vez, durante um banho coletivo, a garota que a interceptou na estrada lhe reaparece e a esfaqueia. Todos pensam que ela foi vítima da agressão de uma das pacientes ou ela mesma havia se ferido. No braço esfaqueado, porém, uma frase sinistra aparece escrita em sangue: “Não sozinha”.

Aos poucos, Dra. Miranda começa a recordar do que lhe aconteceu. Na realidade, após o contato “sobrenatural” com a garota na estrada, ela foi “tomada” por uma força e, inconscientemente, assassinou o seu marido. No local do crime, na parede, estava escrita a mesma frase esculpida em seu braço: “Não sozinha”.

Numa audiência com o diretor do hospital vê uma foto que lhe chama a atenção. Exatamente a mesma garota que vira na estrada. Era a filha do diretor, morta havia quatro anos: Rachel Parsons. Mistério.

Apesar de ser crítica das questões paranormais, que se auto-justificava pela sua racionalidade científica, Dra. Miranda resolve admitir a presença espiritual de Rachel Parsons para poder descobrir a origem do seu drama.

O espírito Rachel a ajuda a fugir da cela, entra numa das salas dos médicos e visualiza uma mensagem no computador. Era a página de um jornal com a foto de Rachel e a manchete de que havia se suicidado. Na mesma cela, visualiza a sela de Chloe (Penélope Cruz), a paciente que tinha contato com o “diabo” e o aviso que ela novamente seria estrupada naquele momento. Corre na tentativa de evitar, mas chega tarde demais.

O restante do filme mostra a causa dos fenômenos que, embora tenha alguns lances paranormais, tem também uma grande armação dos “normais”, seguidores de certa seita satânica.

Os fatos descritos são passíveis de ocorrer? Em tese, alguns sim, outros não. Uma película tende a dar realces para ganhar em dramaticidade.

Dra. Miranda Grey sofreu uma subjugação crônica, vindo a perder a consciência dos seus atos. Normalmente, isto acontece gradativamente. Em Gothika - título original do filme numa alusão aos ambientes góticos, possivelmente - carregam-se nas tintas. A entidade do mal executa o crime do marido que ela, se tivesse algum controle da situação não faria. Não é bem assim. O espírito obsessor nada faz sem a permissão ou passividade do obsedado. Portanto, não a livra da culpa pelo crime cometido.

O espírito pode aparecer para a Dra. Miranda e produzir vários fenômenos de efeito físico. Até mesmo o fenômeno de transcomunicação instrumental - comunicação espiritual pelo computador - é passível de acontecer.

Na Companhia do Medo traz uma interpretação convincente da atriz Halle Berry e uma situação comum há muitas pessoas: acreditar em fenômenos paranormais ou espirituais somente após vivenciá-los.

A incredulidade científica diante de fenômenos dessa natureza baseia-se, muitas vezes, num certo preconceito metodológico de compreensão do fenômeno que se difere, em essência, dos fenômenos físicos, por exemplo.

Dra. Miranda Grey, de certa forma, simboliza esse ceticismo científico que, pouco a pouco, diante da inevitabilidade dos fatos, terá que adaptar a sua “régua” metodológica para compreender melhor uma enorme quantidade de fenômenos absolutamente naturais, mas incomuns.

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