AMOR ALÉM DA VIDA
Somente o amor vence as trevas

Carlos Pereira

O filme começa com um café-da-manhã de uma família feliz. Logo após de se despedir dos pais, os dois filhos pré-adolescentes sofrem um acidente fatal no veículo escolar. A tristeza toma conta do casal. Quatro anos mais tarde, em outro acidente automobilístico num túnel, o médico Chris – vivido pelo ator Robin Williams - também morre, deixando a esposa Annie completamente desorientada para a vida. Se com o marido já era uma barra, sozinha ela desaba novamente em depressão. Pouco tempo depois, não agüenta mais e toma a decisão do suicídio.

Ufa, quanta tragédia! Será que tem mais coisa ruim para acontecer? Tem sim, o drama só está começando.

Voltemos ao Chris. Após sua morte, ele desperta na dimensão espiritual. Acompanhado por uma espécie de guia, assiste seu funeral e fica surpreso por não ser percebido por ninguém. Tenta se comunicar com a esposa, então viva, ela ainda pressente sua presença algumas vezes, mais nada de uma resposta aos seus pensamentos. No mundo espiritual se surpreende quando vislumbra as paisagens que a esposa pintora desenhava nos quadros. A imaginação se tornava realidade. Nas suas descobertas como espírito, sempre com a colaboração de seu guia, experimenta a volitação e outras possibilidades espirituais.

Pouco a pouco começa a entender onde está e como as coisas lá funcionam. Eis que, ligando conversas e fatos, descobre que a moça de aspecto oriental e seu guia negro eram, na verdade, seus filhos com outras aparências.

A paz de Chris é interrompida quando seu filho lhe dá a notícia do suicídio da mãe. Quer imediatamente ir ao seu encontro, auxilia-la, mas é informado que não pode ir onde ela está, pois as conseqüências espirituais para quem tira a própria vida são terríveis. Não aceita o argumento. O filho lhe apresenta, então, alguém que possa lhe levar até ela e é neste instante que a aventura, de fato, se inicia. Chris vai ao inferno para recuperar a sua amada. Passa por lugares tenebrosos e guiado pela sua sintonia mental com ela vai a zonas abismais até encontrar Annie. Lá, se envolve num torvelinho consciencial, e por pouco não se sucumbe perdido com a esposa, que já não se lembrava mais dele em sua loucura particular. Tudo isso só foi possível, segundo o filme, porque os dois eram almas gêmeas e o amor de um foi o suficiente para retirar o outro do fosso existencial.

“Amor além da vida” é riquíssimo de fatos espíritas, mas não necessariamente como entendem os espíritas aqueles episódios, tais como: consciência e destino do indivíduo depois da morte; imagens-pensamento; volitação; aparências espirituais; obsessão; céu e inferno; almas-gêmeas e muito mais.

Os espíritos são reconhecidos pelo grau de evolução que já atingiram. Tal vida, tal morte. Quanto mais voltado para o desenvolvimento interior, desprendido das coisas materiais e progredido moralmente, quando encarnado, mais consciência terá no seu reacordar na dimensão espiritual. Quem se suicida, no entanto, tem, segundo as narrativas mediúnicas, um destino semelhante ou pior daquele mostrado no filme.

As imagens ou formas-pensamento são criações mentais dos espíritos, encarnados ou não. Embora de existência “fictícia” ganha contornos reais, sobretudo para quem os cria. Neste ponto, o filme literalmente caprichou nas tintas.

Outro fato engraçado foi a tentativa do Chris de voar. O termo físico talvez fosse levitar, mas na linguagem espiritual é volitação. Volitar é a capacidade que os espíritos adquirem na outra dimensão de deslocamento, uma vez que não são mais presos pelas limitações físicas da Terra, tornado o seu transporte mais fácil e rápido.

As aparências dos espíritos são mutáveis ao seu desejo. O corpo espiritual toma a forma que o indivíduo quer, porque é moldável plasticamente. Não são poucos os casos de espíritos que escolhem uma determinada aparência de vidas anteriores e assim se apresentam.

Annie certamente passou por um processo obsessivo, isto é, foi influenciada por entidades espirituais maldosas que aceleraram a sua morte. Ou mesmo tenha praticado uma auto-obsessão, representada por uma certa tendência de fuga para não enfrentar os grandes problemas que ocorre na vida física. O céu e o inferno são mostrados com muita fantasia, mas que tem seus toques de realismo pelo que falam os espíritos. Céu e inferno são estados conscienciais da alma, embora existam agrupamentos de almas afins na dimensão espiritual, o que muitos podem chamar de céu – para os bons lugares; e outros podem ser denominados de inferno – para os maus lugares.

O argumento de alma gêmea, porém, não é aceito pela Doutrina Espírita. É muito romântico, bonito, mas não é este o entendimento espírita.

Duas almas não precisam ser complementadas porque são unas, individuais por natureza. Não existe um pedaço faltando que necessita ser achado. O que não impede que dois espíritos se afinem e se amem tanto que as suas existências nos dois planos sejam muitas vezes de extrema proximidade. Mas o amor, o verdadeiro amor, não é egoísta nem exclusivista.

O recado de que o amor pode vencer a todas as barreiras, até mesmo “as infernais” guarda aderência a realidade espiritual. Porque somente “o amor cobre a multidão de pecados”, porque somente o amor prevalece a tudo e a todos. Nesta e em qualquer outra dimensão da vida.

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