ÉTICA E ALTERIDADE: O CLAMOR IRREDUTÍVEL DAS VÍTIMAS

Castor Bartolomé Ruiz

“Nunca deixo de pensar naqueles que sofrem, e junto com eles caminho solidário” (Óscar Neimayer)

Atravessamos o limiar do segundo milênio carregando conosco os velhos e os novos dilemas da humanidade. Nós, os filhos da modernidade, estamos convencidos de sermos muito superiores às gerações passadas. Afinal, construímos o império (imperativo) da razão. A racionalidade científico-tecnológica invade os diversos âmbitos de nossa existência. Para que algo seja verdadeiro deve ser abençoado com o título de que está cientificamente demonstrado. No terreno da ética, o bem e o mal se associam, freqüentemente, àquilo que é útil ou ao agradável para mim.


A Razão Instrumental Nas nossas sociedades contemporâneas, a racionalidade, sob as formas de ciência e tecnologia, passou a ser instrumentalizada pelo modelo social hegemônico ultra-liberal como seu médio mais eficiente de dominação social, de controle ideológico ou de exploração/exclusão das maiorias. Eis a chamada racionalidade sistêmica ou instrumental.
O planejamento e gestão do nosso modelo econômico/social, o ultra-liberal, constitui um dos modos de racionalidade instrumental mais densos e eficazes jamais implementado. O liberalismo econômico abraçou-se cegamente à convicção de que nós, pobres humanos, estamos mediatizados inexoravelmente pela lei natural do interesse próprio. Apregoa com convicção firme que nossas relações sociais se regem invariavelmente pela norma da competição. Mostra que o darwinismo seletivo das espécies é algo científico que determina também o destino da história.
A racionalidade da seleção natural é implacável: só os mais fortes, inteligentes, capacitados, empreendedores, sobrevivem. O resto? É só isso, resto! A racionalidade natural é tão inflexível que impõe às sociedades esta forma de normatividade seletiva. Segundo esta visão, ignorar a lei da seleção natural levará as sociedades para a decadência ou as submergirá de vez na valeta daqueles que são só resto, ou seja, as vítimas.


As vítimas programadas

Mas, por que escandalizar-se? Afinal, não é lei da natureza? Ensina-se que a competição seletiva/excludente é um mecanismo natural que funcionou durante milhões de anos no conjunto das “sociedades” animais e que, conseqüentemente, devemos respeitar e aplicar aos nossos modelos organizativos. É natural, racional, que o mercado se regule pelo interesse individual e não pelo das maiorias; é natural, racional, que esse mecanismo seletivo/excludente auspicie o êxito da minoria mais capacitada em detrimento das vítimas, pois aqueles dirigirão o conjunto da espécie (desculpem sociedade!) para uma evolução superior (super-homem?).
Atravessamos o milênio e os velhos fantasmas da ética nos acompanham. Mas agora, dizem, podemos espantá-los com argumentos científicos! Os conflitos e contradições de natureza ética não devem influir nos mecanismos do mercado, pois este possui uma racionalidade própria que está além das questões éticas. Escutemos, como Paul Samuelson, um grande prêmio Nobel de Economia, o que nos tranqüiliza (aos satisfeitos, é claro): “O cachorro pertencente a J. D. Rockefeller pode receber o leite que precisa um menino pobre para evitar o raquitismo. Por quê? Porque a oferta e a demanda têm um defeito no seu funcionamento? É possível que funcionem de uma maneira terrível, desde o ponto de vista ético, mas não desde o ponto de vista daquilo que somente o mecanismo do mercado está preparado para realizar”.[1] O terrível é que o sistema produz vítimas de modo massivo não por um defeito de sua racionalidade ou por uma deficiente aplicação técnica de seus mecanismos, mas precisamente porque eles funcionam de modo eficiente. As vítimas são algo necessário, calculado, formam parte intrínseca da racionalidade do sistema. O sofrimento das maiorias excluídas é um requisito inevitável para que o sistema funcione corretamente. Eis aqui a grande tragédia (genocídio) com que nos defrontamos neste novo milênio.


O potencial ético (desconstrutor) das vítimas

Se em vez nos deixarmos levar pela suposta coerência argumentativa da lógica do sistema, adotarmos a perspectiva do olhar das vítimas, teremos condições de desconstruir essa pretensa racionalidade (instrumental ou sistêmica).
A perspectiva das vítimas nos faz descobrir que nem sequer a competição é uma lei inexorável da seleção das espécies. Impuseram-se as espécies que implementaram os melhores mecanismos de colaboração e ajuda mútua entre os indivíduos, de modo que o coletivo adquiriu um comportamento muito mais harmônico e coeso frente às dificuldades comuns. As espécies que só incentivaram a competição individual desapareceram quase todas, por exemplo, os sauros[2].
O olhar das vítimas descobre que as leis científicas do sistema nada mais são do que transmutação ideológica dos velhos mecanismos sacrificais. O milenar combate entre o Deus da vida (Iahwéh) e os ídolos da morte reativa-se neste terceiro milênio. O ídolo pretende usurpar o lugar de Deus. Tem semelhança com ele por seu caráter transcendente, mas a radical diferença entre ambos reside em que o ídolo reclama o sacrifício/sofrimento humano para poder existir ou subsistir, enquanto Deus defende a Vida em todas suas versões.


O sistema (mercado), um novo ídolo

Na atualidade, uma nova entidade, o mercado, adquire dimensões supra-humanas, quase divinas (idolátricas): é transcendente à vontade humana, está onipresente em todas as relações, regula de modo onipotente todos os mecanismos, coordena de modo onisciente todas as instituições, é o todo-poderoso que premia aos bons competidores oferecendo-lhes a riqueza e castiga aos maus trabalhadores com a miséria.
Os mecanismos do mercado projetam o sofrimento das grandes maiorias de excluídos como algo naturalmente inevitável, racionalmente necessário. Para o ídolo, o outro (alter) é reduzido a um número estatístico, a um recurso humano, a um elemento produtor/consumidor. O outro não tem rosto humano, ele é objetivado para fins instrumentais de eficácia, lucratividade, produtividade, utilidade, etc.


A alteridade (ética) das vítimas

Mas o sofrimento das vítimas possui uma alteridade irredutível que desmascara a hipocrisia dos supostos mecanismos científicos. Essa alteridade das vítimas, mesmo querendo, não pode ser negada nem reduzida ao silêncio pela propaganda enganosa. Seu sofrimento se levanta, como o clamor do sangue de Abel, contra os tecnocratas que se ocultam atrás de frias cifras e de planejamentos abstratos.
A alteridade irredutível das vítimas desmancha a hipotética solidez das grandes teorias macro-econômicas ou da tão propalada neutralidade científico-tecnológica. A dor humana das vítimas denuncia como meras legitimações ideológicas todos os modelos sociais que proclamam a necessidade lógico/sistêmica do sofrimento humano, ou incorporam como variável necessária e programática a existência massiva de excluídos (vítimas).
Uma vez mais a ética se constitui no marco referencial (teórico e vital) para qualquer modo de convivência humana. Ela deve ser horizonte (utopia) e motivação instigadora (práxis) de todo projeto político-econômico e das dinâmicas institucionais. Mas não serve qualquer ética formal ou abstrata. Uma ética digna desse nome deve tomar como base o olhar das vítimas, e como compromisso inadiável seu grito por dignidade. O autêntico imperativo ético, o dever ser absoluto, emerge do clamor irredutível das vítimas para serem reconhecidas na sua alteridade, isto é, na sua dignidade humana.


Castor Bartolomé Ruiz - Dr. em Filosofia - Professor PPG-Filosofia, Unisinos


[1] SAMUELSON, Paul, Introduçao à análise econômica, vol.1, Rio de Janeiro, 1977, p. 45.
[2] Os estudos do naturalista russo Peter Kropotkin, contemporâneo de Darwin, mostraram que não é a competição más a colaboração solidária o fator decisivo na supervivência das espécies. Resulta significativo que estes estudos foram, até hoje, abafados pela academia, ignorados pela sociedade, ocultados pelos médios de divulgação. Cf. KROPOTKIN, Peter. Mutual Aid: A factor of Evolution. Londres: Heinemann, 1902. Sobre o mito da natureza competitiva do ser humano, cf. MONTAGU, Ashley. A natureza da agressividade humana. Rio: Zahar, 1998.

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