DE BEM COM A DIFERENÇA

Diário de Pernambuco, 29 de agosto de 2004.

Quando eles vêm ao Mundo, diferentes do que os pais imaginavam, a primeira reação é aquele grande susto acompanhado de questionamentos. "E agora, o que fazer?", "Qual o melhor especialista na área?". Muitas famílias se adaptam rápido ao novo integrante da turma e logo compreendem que ter um filho com algum tipo de deficiência é um caminho de mão dupla para o crescimento. "Todos saem ganhando com a descoberta e aceitação das diferenças", argumenta a assistente social Vera Brandão, mãe de Gabriel, autista, 11 anos. Na história dela e de várias outras mães que contam suas experiências no Caderno de Domingo, há um ponto em comum: saber agir para que seus filhotes, se não tiverem chance de cura, que, ao menos, vivam com o máximo de qualidade.

Por acreditar na possibilidade de transcender dificuldades pessoais, a dona-de-casa Eliane Galdino freqüentou - sem faltar um dia - as sessões de fisioterapia e outras técnicas oferecidas pela Associação de Amigos da Criança Deficiente (AACD). "Nunca me incomodei com a descrença dos familiares que não acreditavam na minha filha conseguindo ficar de pé", recorda. Hoje, a torcida do contra pode ver Joyce, de 7 anos, caminhando para tomar o ônibus na propaganda da AACD. "Até ela mesma se emociona ao pensar no resultado do seu empenho e das horas passadas com profissionais de várias áreas", completa.

No caso de Joyce, a coordenação motora foi comprometida em decorrência da paralisia cerebral. A capacidade cognitiva não foi prejudicada, os danos foram nos movimentos dos membros inferiores. Logo nos primeiros meses, a mãe percebia que o bebê não sentava ou mantinha a coluna ereta. "A primeira providência é uma consulta com o pediatra. Ele dá o diagnóstico para iniciar a estimulação precoce com fisioterapia e terapia ocupacional", orienta a coordenadora clínica da AACD, a médica Maria Ângela Giane.

Sua especialidade, a fisiatria, trata da reabilitação física, sugerindo programas para manter a coluna posicionada, a adequação à cadeira de rodas ou às próteses para quem perdeu algum membro. "Existindo dificuldade de fala, treinamos, junto com o fonoaudiólogo e psicólogos uma forma de comunicação alternativa", salienta.

Mas é preciso lembrar às famílias que reverter a situação nem sempre é possível. "Mesmo assim, é fundamental procurar ajuda logo. Com os surdos mudos, um trabalho bem feito não vai fazê-los escutar. Mas há pais que se empenham tanto que eles chegam a cursar faculdade e falar inglês", diz a fonoaudióloga Jamile Meira.

Com o auxílio do aparelho auditivo e da língua de sinais (libras), a professora de educação física Marcleide Cavalcanti preparou a filha para conviver com os coleguinhas na escola e na rua. "Apesar da surdez, ela usa a língua oral com mais freqüência. E nunca teve problemas de socialização", pondera Marcleide.

Outra amiguinha dela no Instituto Helena Lubienska, Marília, de 10 anos, pode relatar uma experiência parecida. A perda da visão não impede que ela visite as colegas de sala nem deixe de participar de brincadeiras no recreio", afirma a mãe, Luciana Leem, que aprendeu o braille para repassar as lições com a filha em casa. Atualmente, a menina está na terceira série e a única diferença em relação a sua turma é a necessidade de livros específicos. "No início do ano, a professora faz uma espécie de treinamento. E os livros são impressos em braille", informa Luciana.

Luta- As lembranças de ambas fazem crer que o mundo, está sim, preparado para receber a todos. Infelizmente, a realidade cotidiana ainda não é bem essa. Gabriel, de 11 anos, apresenta um comprometimento classificado como autismo. "Um comportamento arredio e uma forma própria de encarar o mundo, sem ligar muito para convenções sociais", define outra das mães entrevistadas, Vera Brandão. Aos três anos, já sabia ler e escrever, mas as suas frases, quando eram ouvidas, vinham sempre curtas, feitas de palavras soltas.

"Percebi que me informar era a solução. Busquei apoio do Centro de Pesquisa e Psicanálise da Linguagem (CPPL), garantindo uma rápida evolução", recorda Vera. Até essa fase, foi necessário processar uma das escolas em que ele estudou e acumular decepções com outras. "A Escola Encontro se adequou ao que nós queríamos", elogia. Críticas ainda são uma constante quando Júlia Ferreira lê ou assiste reportagens sobre o mercado de trabalho e sexualidade para portadores da síndrome de Down e doentes mentais. "Esse quadro é feito de exceções. E posso dizer que é raro", descreve.

Seu filho, Carlos Bartolomeu, mobilizou suas atenções a ponto dela criar o Espaço Conviver. "Trabalho com treze adolescentes e adultos. Posso cuidar de Carlos sempre cercado por amigos". E pela namorada. "O debate sobre afetividade dos doentes mentais é polêmica e evidencia como são incompreendidos. Aqui, vi que amar e ser amado é fundamental paraqualquer tratamento", conta. A tese se confirma ao apontar para Jair e Natália, que depois de dois anos de namoro vão casar em fevereiro. "No meu aniversário", comemora a noiva.

indústria de serviços já tomou conhecimento que, para continuar funcionando com 100% de aprovação é preciso acrescentar à sua cartela de opções produtos destinados a um público que quer e precisa de autonomia. "A Celpe, por exemplo, já está adequando sua comunicação para clientes com deficiência visual", adianta o coordenador do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco, Francisco Lima. A proposta é que a partir do próximo ano as contas de luz cheguem em braille e letras ampliadas, favorecendo os cegos e aqueles com baixa visão.

Nos supermercados, restaurantes e farmácias essa realidade já começa a se apresentar. "Os congelados da Sadia trazem a descrição dos ingredientes na embalagem", conta o pesquisador. Na rede Macdonald's, o filho de Francisco - Matheus, de 8 anos - que é deficiente visual, sempre utiliza cardápios e embalagens de refrigerante e sanduíches em braille. A pizzaria Flor do Jucá, o Plim Restaurante e o Steffano (esses dois últimos no Shopping Recife) são outrosendereços que investem na máxima da inclusão social.

O ramo da beleza e no farmacêutico, a Natura e o laboratório Aché foram os primeiros a construir caixinhas com pontilhado para beneficiar todos os seus consumidores. O Centro de Inclusão até já criou uma caneta de aço para perfurar papel, possibilitando a escrita em braille sem a necessidade de uma máquina por perto. No site da Universidade Federal, o professor Francisco Lima já disponibiliza um protótipo do seu verificador de acessibilidade.

"Através de respostas em um programa de computador, saberemos se a escola de seu filho está preparada para recebê-lo. Ou se empresas e hotéis oferecem a ergonomia e a receptividade adequada aos diferentes tipos de deficiência", comenta. Entre as escolas particulares já preparadas para incluir os alunos, o presidente da Associação Pernambucana de Cegos, Manuel Aguiar, cita o Instituto Helena Lubienska, Escola Encontro e o Colégio Contato.

Em unidades estaduais de ensino, como a Escola Rochel de Medeiros, no complexo IEP, atende aos surdos, enquanto a Barbosa Lima, na Agamenon Magalhães, se dedica a alfabetizar cegos. Crianças com vários graus de deficiência mental, psicóticos e autistas podem freqüentar a Escola Ulisses Pernambucano, na Boa Vista, e o Centro de Reabilitação e Educação Especial (CREE), em Casa Amarela. No município, a concepção é de educação inclusiva. Ou seja, a princípio, todas estão aptos a receber alunos.

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