GLOBALIZAÇÃO, ECONOMIA E PSICOLOGIA

Jorge Luiz de Oliveira Braga

A discussão que, à princípio, podemos fazer sobre o tema deverá se abster em conceituar e definir elementos exclusivos do âmbito técnico e teórico da Economia, Administração, Política e demais áreas afins. Nos cabe apenas nos comprometer com a abordagem psicológica e, consequentemente, simbólica, do que venha a ser Globalização ou Mundialização - Economia e Psicologia. O exame das raízes míticas e simbólicas do fenômeno, assim como de algumas das mais relevantes e prováveis conseqüências para a vida e para o Homem, deve ser o objetivo deste trabalho.

Partindo do princípio de que temos uma razoável noção do que venha a ser Globalização e como esta pode ser descrita do ponto de vista econômico e político, cabe elaborar uma síntese sobre o assunto, extraindo o foco central sobre o que estamos falando, ou seja : mercado financeiro e, mais especificamente, dinheiro.

E falando, então, estes termos, já na perspectiva da psicologia, caberia citar Normam Brown quando afirma que : " O dinheiro é a Alma do mundo". Tomando-se Alma por Psique e vice-versa, propomos um modelo simbólico de equação onde dinheiro = psique. E isto é algo que a Psicologia Junguiana tenta explicar e trazer à luz quando traduz que : imagens de dinheiro em sonhos = energia psíquica, libido.

O dinheiro, por este ponto de vista, pode, por analogia, ser tomado como equivalente ao sangue que circula nos organismos vivos. O dinheiro é a libido, a energia vital da cultura. E todos conhecemos os reflexos de qualquer alteração ou interrupção em sua circulação causam ao sistema.

Podemos também examinar outra analogia que enriquecerá nossa compreensão com relação ao papel que a Economia, enquanto atividade governamental e individual que administra e regula o fluxo de dinheiro, pode ter simbolicamente em nossa vida cotidiana.

Se, nos organismos vivos, o controle e Administração sistêmica dos processos de circulação da libido é feito por uma dimensão que, psicologicamente, chamaremos por Psique, então, será esta Psique que será tomada como o equivalente da Economia no que diz respeito ao mundo.

Ou seja, a equação que demostra que o dinheiro é o sangue do mundo e que a Psique, tal qual a Economia, é que virtualmente rege o seu funcionamento, podemos dizer que Psique/libido = Economia/dinheiro.

Assim como a Psique tem sua história, o dinheiro também a tem e é um elemento vivo da cultura no continum espaço-tempo que representa a memória de uma nação. A energia, aspirações e realizações dos ancestrais da nação, que defenderam e trouxeram valores para a comunidade, são comemoradas em cada denominação da moeda que passa por nossas mãos e que alimentam nossas esperanças para o futuro. Em nossas notas e moedas estão impressas as faces dos heróis nacionais e por meio de suas imagens, somos chamados a lembrar que nos beneficiamos das ações heróicas desses indivíduos, que com o seu sacrifício, e de todos os que viveram na mesma época tornaram possível o que temos hoje: a energia e a alma deles movendo o mundo.

É imperceptível o pano de fundo que suporta o ritual mágico de transformação de um pequeno pedaço de papel na atualização de um desejo. O dinheiro dá ao corpo da economia uma memória, o dinheiro é um valor e vale ao relembrar os mortos. O dinheiro é também riqueza, bem-estar individual e comunitário e apesar de não ser lastreado como tal, o dinheiro representa o ouro, metal precioso, a imortalidade.

Mesmo assim Freud diz que o dinheiro é mais parecido com o excremento do que com o ouro. Nesta afirmativa metafórica, chama a atenção para o lado "sujo" do dinheiro e para com a conexão dos assuntos monetários com os processos vitais do corpo, o senso de que a saúde do corpo depende do movimento coreografado do dinheiro. Gastar dinheiro, neste ponto de vista, é poder reter e soltar.

Há muitos exemplos na literatura e no cinema para ilustrar estas situações e podemos tomar de Walt Disney o personagem de Tio Patinhas como um velho avarento e mal humorado que acumula moedinhas. Age sem conexão com o mundo e com a Alma. Retêm o dinheiro na ilusão de garantir para um incerto futuro sem no entanto viver no mundo com alma.

Assim, entendemos que acumular dinheiro pode ser tomado como uma ilusão de garantia do futuro que tem como contrapartida a perda da Alma. Usar dinheiro para fazer dinheiro constitui o reino das finanças e estas parecem não ter nada a ver com a Alma.

Quando o dinheiro é vivido como um meio mágico, a transação pode ser vista como condensando todo o reino de relações - as relações com a loja onde estamos, com o vendedor e assim por diante. Assim poderíamos propor que a finalidade do dinheiro é fazer Alma e não fazer dinheiro. O trabalho que gera o capital e que realiza a Alma e o sujeito torna-se a realização do Homem de todos os tempos.

Globalizar ou mundializar o dinheiro e as relações que este acarreta pode estar representando uma tendência natural do Homem em encontrar a Psique do mundo, uma "Alma comum" que possa adequadamente representar a unidade presente na pluralidade e vice-versa.

A ordem explícita na organização de um mundo com fronteiras que limitam sem impedir e que guarda, mantêm e cultiva as diferenças é, simbolicamente, a representação mais próxima da ordem natural implícita subjacente à Humanidade. Isto tudo sugere a criação de um modelo análogo à sua própria natureza.

O Homem busca, com estas expressões, estruturar uma nova pólis que melhor represente e espelhe sua interioridade e dimensão subjetiva. A busca da totalidade, o "holos", é um determinante arquetípico atemporal presente no inconsciente coletivo de todos nós.

Assim sendo globalização, economia e psique têm um denominador comum que é a busca da pólis universal que traduzida em termos objetivos significa a relação criativa entre dinheiro e psiqué. A tecnologia e a informatização dos processos de comunicação criaram as condições necessárias para a ocorrência deste fenômeno. Agora, às portas de um novo século, nada mais natural do que a emergência da busca de um modelo de mundo desnacionalizado, com fronteiras mais flexíveis e que permitam o livre comércio entre os povos.

As vezes, podemos ter a impressão de estar vivendo novamente a quimera de uma "linguagem única" tal qual foi com o Esperanto, ou seja, uma língua miscigenada, sem história e cultura específica que a suporte. Uma língua sem alma construída em laboratório com a frieza exclusiva do intelecto que ainda crê que estas dimensões podem ser criadas no laboratório ou na prancheta e que, objetivamente : 2 + 2 é igual a 4.

É interessante considerar nossa memória mítica sobre a Torre de Babel, onde Iahweh ao descer para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído diz :

"Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativas ! Agora nenhum desígnio será irrealizável para eles. Vinde ! desçamos ! confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros."

E assim Iahweh os dispersou dali por toda a face da Terra, e eles cessaram de construir a cidade. (Gn 11). Apontamos então esta passagem bíblica como uma das mais relevantes matrizes arquetípicas da globalização.

O Homem precisa temer sua própria hybris para que não caia sobre si mesmo e tenha condições de possibilidade de criar um mundo com Alma, fato este que, o obrigará forçosamente a re-pensar a vida moderna. Criar um mundo que considere a psique ou alma e a que a economia signifique apenas o cuidado com o " lar familiar do mundo" deve ser a tarefa principal de todos os que experimentam o grande fenômeno da Psique.

É profundo e arcaico o desejo do Homem de elaborar uma identidade transcendental para que possa se ver como um cidadão do mundo. O Homem Eterno, Cósmico, é muito mais do que uma quimera, é uma realidade que pulsa e vive nos subterrâneos arquetípicos do inconsciente coletivo de todos nós. Hoje, a semente destas idéias poderá estar refletida travestida sob a forma econômica de globalização.

Parece-nos que este ideal arcaico é a força motriz que nos faz re-pensar as diferenças que nos definem e separam e, nos fazendo superá-las em todas as suas expressões : credos, raças, políticas, economias, pensamentos, filosofias, linguagem, geografia, história e tudo mais para que se possa chegar ao Homem total. Tudo isto tem a possibilidade de deixar de ser um sonho romântico e vir a ser a grande experiência transcendental do nosso tempo.

Não nos cabe defender ou acusar a globalização ou até mesmo apontar pontos positivos e negativos mas simplesmente reconhece-la como um autêntico e legítimo anseio do Homem que busca re-definir sua identidade e alcançar o nível de Alteridade em suas relações, considerando as diferenças em todas as suas dimensões.

Acredito que é nosso dever reconhecer esta tendência como humana e lhe dar continente. E isto inclui a discussão aprofundada dos mais variados aspectos sombrios deste fenômeno e sua conseqüente integração.

A psicologia deve acompanhar este movimento e manter ativo este fórum de debates e reflexões pois parece ser um caminho inevitável, uma arcaica semente que já espera alguns séculos para dar frutos. Ao entendermos nosso mundo como nosso lar e principalmente como um ser vivo que precisa ser tratado como tal, poderemos perceber a antiga proposta da hipótese Gaia e da perspectiva holográfica. A crescente preocupação com a ecologia já é uma expressiva demonstração desta compreensão do mundo.

Globalizar é, neste ponto de vista, uma tendência muito além da Economia e do mercado financeiro, é uma busca da identidade transpessoal do Homem e da Alma do mundo. Globalização é a busca das dimensões de Alteridade, da ética relacional que vai buscar o Eu na fenomenologia do Eu-Outro. As fronteiras não mais limitam mas apenas definem cada um e cada qual, deixando de ser muros de prisão para ser de proteção. E esta é uma metáfora que deve inspirar poetas, políticos, padeiros, cadeias de fast-food e todos os demais.

Apesar da poesia e da ingenuidade sabemos, que a literalização desde anseio ôntico traz a terrível sombra da massificação do sujeito, o hiper-estado totalitário, o imperialismo econômico, o capitalismo selvagem, neo-liberalismo e todas aquelas outras formas de dominação que re-cria a cada instante as perversas relações de dominador-dominado e todas as outras tendências à tomar as coisas "ao pé da letra".

Se ao apontarmos para o céu o Homem só enxergar o dedo que aponta.

Fonte: Sapere Audere, 23/07/01.

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