EUA EM GUERRA
Demétrio Magnoli

"Nos dias seguintes aos ataques terroristas a Nova York e ao Pentágono, George W. Bush proclamou uma 'cruzada' contra o terror, em defesa da 'liberdade' e dos 'valores da civilização ocidental'. A rede de TV CNN pintou a sua tela com os tons da bandeira americana e editou as reportagens alternando a dor dos parentes das vítimas a manifestações patrióticas e declarações oficiais de guerra. 'América em guerra' foi, durante duas semanas, a chamada ubíqua da tela da CNN.

A proclamação da 'cruzada' desatou ondas de agressões e humilhações contra cidadãos americanos de origem árabe ou religião muçulmana. A 'cruzada' foi suprimida e Bush, em busca de adesões estratégicas à sua 'coalizão contra o terror', passou a enfatizar que os Estados Unidos não estão em guerra contra o islã. Acompanhando a flutuação na política oficial, a 'América em guerra' desapareceu da tela da CNN, substituída pela 'guerra contra o terror'.

Mesmo assim uma pesquisa Gallup divulgada no final de setembro registrava que 49% dos americanos aprovavam a idéia de obrigar os americanos de origem árabe a circular com identificação especial. As Cruzadas representaram etapa decisiva na construção histórica e cultural da identidade do Ocidente. Um marco fundador da Europa moderna foram os decretos dos reis católicos da Espanha, em 1492 e 1501, determinando a conversão ou expulsão dos judeus e muçulmanos. Bem mais tarde, no século 19 e na moldura da expansão imperial das potências européias, o Ocidente construiu a representação do Oriente (árabe e muçulmano) por meio da operação das dicotomias: razão e irracionalidade, luz e sombras, clareza e mistério. T.E. Lawrence, o 'Lawrence da Arábia', amava o Oriente. Numa carta de 1918, descreveu o espírito dos árabes: 'Eles pensam para o momento e esforçam-se por passar pela vida sem dobrar esquinas ou subir montanhas. Em parte, isso significa uma fadiga mental e moral, uma raça esgotada (...). Sei que sou um estrangeiro para eles -e sempre serei-, mas não posso acreditar que sejam piores (...)'. A produção imaginária de um Oriente funcionou como recurso para a produção do próprio Ocidente.

O tema do 'choque de civilizações' ressurgiu, em 1991, na obra superficial mas aclamada de Samuel Huntington, que construiu conjuntos culturais excludentes e sugeriu que o sistema internacional orientava-se para um eixo principal de conflito entre o Ocidente e o islã.

A cobertura da crise aberta pelos ataques terroristas pela mídia nacional pautou-se pela alteridade simplista entre o Ocidente e o islã. A revista 'Veja', que tem por norma tratar o leitor como ignorante absoluto, continuou engajada na 'cruzada' mesmo depois que a gafe de Bush foi suprimida da cobertura americana. Órgãos mais sérios rejeitaram a 'cruzada' desde o início, mas não conseguiram escapar da armadilha da alteridade.

Jihad não é 'guerra santa', mas o esforço do fiel muçulmano para submeter-se a Deus e difundir a sua fé. Só em casos extremos pode ser uma 'guerra justa'. O fundamentalismo islâmico atual emanou, em primeiro lugar, da monarquia absolutista e repressiva saudita. Por meio da noção de 'unidade do islã', essa monarquia, sustentada pelos Estados Unidos, procurava dissolver o projeto laico da unidade árabe do egípcio Gamal Abdel Nasser.

O fundamentalismo afegão foi financiado diretamente pelos Estados Unidos, durante a guerra contra a ocupação soviética. O Taleban e Osama bin Laden surgiram logo depois, como peças de uma engrenagem destinada a colocar o Afeganistão sob a dupla influência do Paquistão e da Arábia Saudita, ambos aliados dos Estados Unidos.

Os leitores praticamente não foram informados de nada disso. Presa a uma tradição cultural pervasiva, a mídia nacional reproduz polaridades imaginárias como o Ocidente e o islã, a razão e o fanatismo, a liberdade e a jihad etc. Em graus diversos, mimetiza a CNN, que é parte de um conglomerado privado, mas se comporta como porta-voz oficioso dos Estados Unidos.

Perde, assim, a oportunidade de decifrar os significados da narrativa histórica que fundou a civilização ocidental.

Fonte: "Oportunidade perdida", copyright Folha de S. Paulo, 6/10/01 - Demétrio Magnoli, 42, doutor em geografia humana pela USP, é editor do boletim 'Mundo Geografia e Política Internacional'.

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