A PRÁTICA DA ALTERIDADE

Quando a diferença é que soma

Carlos Pereira

Olhe para os dedos de sua mão. Eles são diferentes. Ainda bem. Exatamente por serem diferentes eles são harmoniosos quando vistos em conjunto. Já imaginou se eles fossem todos iguais? Certamente teríamos dificuldade de fazer o que fazemos de maneira tão natural. A humanidade, pode-se dizer, é semelhante a uma mão. Somos diferentes numa família. Somos diferentes numa região. Somos diferentes numa nação. A diferença é inerente, portanto, à natureza humana. Que bom que assim seja. Mesmo óbvio este raciocínio, o homem tem demonstrado ao longo de sua história ser incapaz de reconhecer e conviver pacificamente com o diverso, com o plural. Em função disso, ele tem alimentado as guerras, os movimentos de intolerância de toda sorte, as antipatias gratuitas, os separatismos, o racismo, a exclusão, a intolerância, a discórdia, o seu próprio desequilíbrio, enfim.

O que fazer para reverter este quadro de auto-aniquilamento? Praticar a alteridade. Alter... o quê? Alteridade. Significa considerar, valorizar, identificar, dialogar com o outro (alter, em latim). Diz respeito aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais. Na relação alteritária, o modo de pensar e de agir, as experiências particulares, são preservadas e levadas em conta sem que haja sobreposição, assimilação ou destruição.

Eis o desafio: estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes. Um caminho de superação deste embate estaria baseado em três fases: identificar, entender e aprender com o contrário.

Ao se deparar com o diverso deve-se, inicialmente, retirar da mente qualquer "pré-conceito", deixar-se livre para receber o conteúdo do outro sem opinião formada. Em seguida, é necessário procurar entender as razões pelas quais o outro concebe as coisas do seu jeito, desenvolver uma certa capacidade empática para, finalmente, conquistar o aprendizado na relação, ampliando sua capacidade de entendimento e, mais ainda, de convivência fraterna.

A prática da alteridade, nos dias hodiernos, é fundamental diante do ambiente plural, amplificado pela tecnologia da Informação, pela globalização das relações, pelas conquistas democráticas e pela facilidade das comunicações. Imprescindível até pelo clima conflituoso que cresce entre os povos. Martin Luther King dizia que "Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas".

A sabedoria nos ensina que somente haverá crescimento quando lidamos com aqueles que pensam diferente do que a gente, porque ele, de fato, vai ter o que acrescentar no relacionamento. Quantos avanços não têm sido possíveis por causa da convivência solidária entre os aparentes divergentes. É necessário compreender, de uma vez por todas, que o tempo da inquisição já passou, embora muitos ainda teimem em querer sempre ressuscitá-lo das mais diversas formas.

E no meio espírita, pratica-se a alteridade?

Não. Ainda não. Costuma-se encarar a dissidência do pensar como oposição deliberada. Taxa-se até de obsedado àquele que queira defender de maneira equilibrada um ponto de vista. Na realidade, adota-se uma postura de discriminação. Pior. Trata-se o diferente com a indiferença. Joga-se por terra a própria condição da filosofia que pressupõe como base do conhecimento o livre pensar, a especulação sadia. O comportamento corrente, paradoxalmente, é dogmático. Joga-se por terra o emblema kardequiano que destaca a tolerância como princípio básico das relações do espírita verdadeiro. Joga-se por terra, finalmente, a própria condição cristã do amar uns aos outros que não admite o repúdio ao seu irmão simplesmente por ele possuir uma ótica diferente de enxergar a mesma realidade.

O Espiritismo, desde a sua aparição sistematizada no século XIX até hoje, tem sido vítima, sobretudo, da ausência da prática alteritária pelos nossos irmãos de outras filosofias, crenças religiosas e do meio científico. Como exigir, portanto, uma ética alteritária externa se não a exercitamos dentro de nossas fileiras?

Há muito a aprender sobre alteridade nos agrupamentos espíritas, principalmente porque o Espiritismo só poderá influenciar os vários campos do conhecimento humano se conseguir se inserir de maneira harmoniosa junto àqueles que atualmente pensam divergentemente de seus postulados. As idéias espíritas predominarão na Terra um dia pelo alteritarismo de relacionamento e não pelo autoritarismo de comportamento.

É chegada a hora de dar-nos as mãos. Diferentes, mas, ao mesmo tempo, bem iguais. Compreender que apenas a diferença é que verdadeiramente soma. "Você pode pensar que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único"

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