Resiliência Espiritual
Carlos Pereira
Publicado em 25/05/2008

Dia desses ouvi falar numa lei emblematicamente intitulada de Maria da Penha. Trata-se de uma lei que torna mais rigorosa as penas para os homens que agredissem às mulheres. Nada mais justo e oportuno porque ainda há homens que se sentem proprietários das suas mulheres e, portanto, acreditam que podem fazer o que bem quiserem com elas, inclusive baterem e cometerem outros tipos de violência. Quem, porém, era esta Maria da Penha? Investigando, descobri que era uma cearense, com mais de 60 anos, que ficou paraplégica por conta do seu ex-marido que por duas vezes tentou assassiná-la. Numa, recebeu um tiro nas costas enquanto dormia tirando-lhe a sensibilidade e, depois, foi empurrada da cadeira de rodas e quase eletrocutada no chuveiro. Maria da Penha não baixou a cabeça. Superou às adversidades, lutou pela mudança da legislação que era um tanto condescendente e atualmente participa de uma associação de parentes e amigos de vítimas de violência no Ceará.

A história de Maria da Penha guarda semelhança com a de muitas outras pessoas que enfrentaram um verdadeiro vendaval nas suas vidas, mas souberam "levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima". Isto não é fácil, mas é possível. Esta capacidade de superar as mais difíceis tragédias e se tornarem mais fortes ganhou recentemente uma denominação interessante: resiliência. Resiliência é um conceito emprestado da Física que tem a ver com a propriedade de que são dotados alguns materiais de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse, voltando em seguida ao seu estado original, sem qualquer deformação. O comportamento resiliente se opõe àquele em que certas pessoas, submetidas a algum trauma, tornam-se incapazes de reação e cada vez mais se movimentam para o fundo do poço. De onde viria esta reação contra as tempestades situacionais? Seria um potencial genético diferenciado que faz algumas pessoas serem mais resistentes que outras? Poderia ser a influência do meio, da cultura, das tradições?

Esta incrível força de se levantar do chão e arranjar entusiasmo não se sabe de onde pode ter relação com algumas das hipóteses acima enumeradas, mas evocaremos aqui a evolução espiritual já conquistada por estas pessoas. Primeiramente é importante conceber que o Creador de todos nós, Deus, sendo perfeito e bom, não haveria de permitir que qualquer uma das suas criaturas venha a sofrer fortuitamente. Há razões para isso. Razões que podem ser desconhecidas no presente, mas que remontam a um passado de outras existências. Há nas adversidades uma lição a ser tirada, um aprendizado a ser adquirido. Ciente de que não existe um efeito sem uma causa justa, as situações-limites precisam ser encaradas de frente. Claro que se deve apelar a todos neste exercício de superação como Deus, seu guia protetor, os amigos espirituais e os daqui da vida física, mas a conquista é individual.

Estudos recentes sobre resiliência humana atribuem várias posturas que são encontradas nas pessoas resilientes, entre elas estão o otimismo, a flexibilidade, a humildade, a persistência, a criatividade e a fé. No fundo, tudo é um processo de auto-conhecimento em que a perspectiva espiritual faz a pessoa perceber tudo com mais serenidade, sabendo intimamente de que tudo vai passar.

As pessoas resilientes já despertaram a consciência para as coisas verdadeiras da vida, ignorando o que é transitório e, portanto, ilusório. Assim, elas adotam um comportamento de equilíbrio ante a turbulência ambiental. A propósito, Dom Helder Camara afirmava que "há pessoas como a cana. Mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura", isto chama-se resiliência espiritual.

Carlos Pereira é membro da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Pernambuco, ADE-PE

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