O Amor que libertou Judas
Nilton Santos
Publicado em 23/03/2008

A imprensa divulgou, recentemente, um manuscrito denominado de Evangelho de Judas, que vem provocando polêmica nos meios cristãos, porque dá outra versão ao procedimento de Judas Iscariotes. Temos algo a dizer sobre o assunto.

Fala-se sempre do sofrimento de Jesus e das dores de tantos outros que, encarnados neste orbe, edificaram o bem e experimentaram padecimentos físicos e morais. Quanto ao apóstolo Judas que, por equívoco, entregou o Mestre aos algozes, o que se ouve são acusações terríveis de pessoas que, ao nosso ver, ainda não entendem que o perdão e a misericórdia são meios utilizados pelo Tribunal Divino, que sempre dá oportunidade para a reabilitação, pois Deus "não quer a destruição do ímpio, mas que ele se modifique".

No poema Retrato de Mãe, de Maria Dolores, temos uma idéia da situação dele, muito tempo depois do drama do Calvário, quando, cego no Além, solitário, cansado de remorso e sofrimento, chorava.

A poetisa escreve: - Nisso, nobre mulher de planos superiores, nimbada de celestes esplendores, que ele não conseguia divisar, chega e afaga a cabeça do infeliz.

E, com carinho profundo, ela lhe diz:

- Meu filho, por que choras?

Judas, agressivo, replica:

- Acaso não sabeis? Sou um morto e estou vivo. Matei-me e novamente estou de pé, sem consolo, sem lar, sem amor e sem fé... Não ouvistes falar em Judas, o traidor? Sou eu que aniquilei a vida do Senhor... A princípio, julguei poder fazê-lo rei, mas apenas lhe impus sacrifício, martírio, sangue e cruz.

O pobre Judas prossegue descrevendo seu tormento.

A dama calma, fala:

- Meu filho, sei que sofres, sei que lutas, sei a dor que te causa o remorso que escutas, venho apenas falar-te que Deus é sempre amor em toda parte... A Bondade do Céu jamais condena. Sofre com paciência a dor e a prova, terás, em breve, uma existência nova... Não te sintas sozinho ou desprezado.

Mas Judas, rude e pasmo, descreve o suicídio e as dores sem fim.

A nobre mulher, docemente, insiste: - Por mais que me recuses, não me altero, amo-te, filho meu, amo-te e quero ver-te, de novo, a vida maravilhosamente revestida de paz e luz, de fé e elevação... Virás comigo à Terra, perderás, pouco a pouco, o ânimo violento, terás o coração nas águas de bendito esquecimento. Numa nova existência de esperança, levar-te-ei comigo a remançoso abrigo, dar-te-ei outra mãe! Pensa e descansa!...

Judas, então, perguntou:

- Quem sois vós? Que me falais assim, sabendo-me traidor? Sois divina mulher, irradiando amor ou anjo celestial de quem pressinto a luz?!...

Ela respondeu simplesmente:

- Meu filho, eu sou Maria, sou a mãe de Jesus.

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O poema completo está no livro Momentos de Ouro, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Edição do GEEM - Grupo Espírita Emmanuel, de São Bernardo do Campo - SP.

Nilton Santos é membro do Núcleo Espírita Bittencourt Sampaio

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