O Caso de Sinhazinha
Nilton Santos
Publicado em 09/03/2008

Uma das mais belas e educativas páginas que conhecemos, de escritor espírita, foi redigida pelo advogado Pinheiro Ramos. O fato aconteceu quando ele residia no bairro do Hipódromo e estudava o 3º ano na Faculdade de Direito do Recife, em 1933. Era uma sexta-feira. Foi chamado ao quarto da sua tia e mãe de criação Sinhazinha, que estava acamada, a qual lhe avisou que no dia seguinte, pouco antes das 8h, deveria morrer, ou seja, retornar à Espiritualidade. Hermenegilda, irmã de Pinheiro, e a prima Cristina choravam.

Ela pediu para não avisar, naquele dia, aos filhos residentes em Paudalho, a fim de não atrapalhar as compras semanais, uma vez que suas presenças não modificariam nada. Pediu para ser enterrada com o hábito das irmãs do Carmo, no cemitério de Paudalho, por ser zeladora do Coração de Jesus, naquela cidade. No dia seguinte, tornou a conversar com o jovem, que não chorava e mantinha a calma, dando-lhe conselhos e orientando. Faltavam dez minutos para as 8h, ela viu ao seu lado: alguns amigos, a mãe, o pai, o esposo, todos falecidos. Pediu que acendesse a vela e a colocasse em sua mão. Era prática católica na época. Despediu-se com serenidade, satisfeita e, suavemente, desprendeu-se ao inclinar a cabeça para o lado.

O jovem Pinheiro Ramos e sua tia, Maria dos Anjos Novelino Antunes da Silva (Sinhazinha) ainda não tinham ouvido falar em Espiritismo, porém ela era católica e médium, via e ouvia os espíritos que a aconselhavam nos momentos difíceis. Era sincera e, ficando viúva, criou seis filhos e mais três irmãos do Pinheiro e o próprio. Ela soube antecipadamente o momento da morte porque estava preparada para isto.

O caso verídico, aqui resumido, é o último capítulo do livro Lição dos fatos, de Agesilau Novelino Pinheiro Ramos, editado pelo Grupo Espírita Seara de Deus, à Rua Walfrido Lins de Morais, 289, Janga, Paulista-PE.Fone: 3434-1128.

Allan Kardec, codificador do Espiritismo, em pleno século 19, fez esta interessante pergunta:
“Qual o sentimento que domina a maioria dos homens no momento da morte: a dúvida, o temor ou a esperança?”

Resposta dos espíritos instrutores: “A dúvida, nos céticos empedernidos, o temor, nos culpados, a esperança, nos homens de bem.”

O livro dos espíritos, obra básica do Espiritismo, completou 150 anos em 18-04-2007.

O caso de Sinhazinha, aqui citado, serve para lembrar que nós, espíritas, reconhecemos os valores humanos, independentemente de rótulos, pois o importante é a conduta.

O mestre nazareno já afirmara: “A cada um segundo as suas obras” (Ap. 22:12).

Ela era católica, como poderia estar vinculada a outra doutrina ou não. O que importa é a ação voltada para o bem de todos, como ficou claro no sermão do monte: “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mateus, 5-9). Aos fanáticos, outra lição do Evangelho: “O pior cego é o que não quer ver.”

A parábola do bom samaritano demonstra a importância da prática do bem. E o próprio Jesus, sempre que restabelecia o equilíbrio de alguém, aconselhava: “Vai e não tornes a errar para que não te aconteça coisa pior.” O bem não tem fronteiras.

Nilton Santos é membro do Núcleo Espírita Bittencourt Sampaio, no Monteiro, Recife.

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